"Convite para uma chávena de chá de jasmim"


terça-feira, 30 de outubro de 2007

Soneto de Aniversário


Passem-se dias, horas, meses, anos
Amadureçam as ilusões da vida
Prossiga ela sempre dividida
Entre compensações e desenganos.

Faça-se a carne mais envilecida
Diminuam os bens, cresçam os danos
Vença o ideal de andar caminhos planos
Melhor que levar tudo de vencida.

Queira-se antes ventura que aventura
À medida que a têmpora embranquece
E fica tenra a fibra que era dura.

E eu te direi: amiga minha, esquece...
Que grande é este amor meu de criatura
Que vê envelhecer e não envelhece.

Do Vinicius para a Lia - Vinicius de Moraes (Rio, 1942)
Imagem: Matt Nighswander

segunda-feira, 29 de outubro de 2007

Valsinha


Um dia ele chegou tão diferente do seu jeito de sempre chegar
Olhou-a de um jeito muito mais quente do que sempre costumava olhar
E não maldisse a vida tanto quanto era seu jeito de sempre falar
E nem deixou-a só num canto, pra seu grande espanto convidou-a pra rodar
Então ela se fez bonita como há muito tempo não queria ousar
Com seu vestido decotado, cheirando a guardado de tanto esperar
Depois os dois deram-se os braços como há muito tempo não se ousava dar
E cheios de ternura e graça foram para a praça e começaram a se abraçar
E ali dançaram tanta dança que a vizinhança toda despertou
E foi tanto felicidade que toda cidade se iluminou
E foram tantos beijos loucos, tantos gritos roucos como não se ouviam mais
Que o mundo compreendeu
E o dia amanheceu

Em paz


Valsinha, uma canção de Chico Buarque de Holanda é dedicada a um movimento social dos anos 70 denominado hippie, o qual pregava a liberdade de acção do indivíduo. Essa prática levava as pessoas a agirem livremente e sem preconceitos no período de repressão do Governo Militar.Normalmente, os seus seguidores viviam em grupos, preconizavam o amor, aboliam a discriminação racial e faziam sexo livremente, isento de condenação.

A alusão que Chico faz ao movimento é personificada na performance de um casal que, “um dia“, muda a sua conduta, tomando um outro rumo na vida. A homenagem a esse evento de vanguarda retrata metaforicamente o lirismo vivido pelos seus integrantes como artifício para
fugir da censura política.


Análise: Prof. José Atanásio da Rocha

Imagem: Mónica Santos

domingo, 28 de outubro de 2007

Chris Jordan - o desperdício transfigurado em composição artística e objecto de reflexão

a b c


d e f


g

Chris Jordan é americano. Mas poderia não o ser..pensam todos aqueles que associam o significante a um significado de altivez política, ganância económica e aridez acultural. Os pré-conceitos e as tipificações são um denominador comum: o passo inicial na formulação de conceitos é precisamente encontrar as características gerais que permitam, apesar da diversidade individual, reconhecer e associar o conceito com o referente. Pergunto-me se a adjectivação acima me permitiria chegar à representação mental de América..mas esse é um outro exercício.

Oriundo de Seattle, Chris Jordan é um artista..outro conceito polémico. Artista, arte e diferentes modos de a exprimir e conceptualizar. O belo pelo belo; a arte enquanto imbuída e reveladora de uma mensagem política; a arte "democrática" e massificada ; a subversão dadaísta ? Qual a fronteira entre subversão e iconoclastia? E nem sequer nomearei o "artista" que recentemente trouxe mais uma acha para esta discussão...ao deixar morrer um cão que havia recolhido nas ruas ...em nome de uma mensagem humanista - homenagem pessoal a uma vítima mortal de um ataque desferido por um cão feroz - ao mesmo tempo que denunciava a hipocrisia de todos aqueles que se indignaram com a morte do animal numa galeria ou "espaço branco". mas não se rebelam contra o número crescente de animais abandonados e entregues à sua sorte. Tenho uma opinião sobre esse senhor...que se prende com a necessidade de protagonismo e o arrivismo pseudo-cultural...a denominação "arte" é um holofote que o próprio regula sobre si.

Afinal ..porquê Chris Jordan? Partindo do denominador comum e do nível limiar de Arte como transfiguradora do real e do conceito do artista como ser balizado por fronteiras espacio-temporais que o influenciarão e, por conseguinte, a sua arte - ou seja começando pelo pré-conceito - vamos construindo níveis mais complexos de significação à medida que diferentes elementos/ materiais nos vão sendo desvelados. Olhando com mais pormenor notamos...


a b c




d e



g

Para os ainda incrédulos, abaixo consta a legenda das imagens
a- 213.00 comprimidos da marca Vicodin: idêntico número de registos anuais de emergência hospitalar por abuso de analgésicos.
b- 60.000 sacos de plástico gastos nos EUA p/ segundo.
c- 11.000 rastos de aviões correspondentes a vôos comerciais nos EUA em períodos de 8 horas.
d- 29.569 armas: idêntico número de vítimas do seu uso em 2004.
e- 106.000 latas de alumínio consumidas em 30 segundos.
f- 8.000.000 de palitos: igual número de árvores abatidas mensalmente e transformadas em papel para catálogos de encomendas.
g- 9.000.000 blocos de letras; idêntico número de crianças nos EUA não abrangidas pela Segurança Social.





170.000 pilhas descartáveis produzidas pela Energizer em 15 minutos!


An American Self Portrait
Actualmente exposta na Paul Kopeikin Gallery em Los Angeles.
Mais informações: www.paulkopeikingallery.com.

A monsieur Vitart

Le soleil est toujours riant,
Depuis qu'il part de l'orient
Pour venir éclairer le monde.
Jusqu'à ce que son char soit descendu dans l'onde
La vapeur des brouillards ne voile point les cieux ;
Tous les matins un vent officieux
En écarte toutes les nues :
Ainsi nos jours ne sont jamais couverts ;
Et, dans le plus fort des hivers,
Nos campagnes sont revêtues
De fleurs et d'arbres toujours verts.

Les ruisseaux respectent leurs rives,
Et leurs naïades fugitives
Sans sortir de leur lit natal,
Errent paisiblement et ne sont point captives
Sous une prison de cristal.
Tous nos oiseaux chantent à l'ordinaire,
Leurs gosiers n'étant point glacés ;
Et n'étant pas forcés
De se cacher ou de se taire,
Ils font l'amour en liberté.
L'hiver comme l'été.

Enfin, lorsque la nuit a déployé ses voiles,
La lune, au visage changeant,
Paraît sur un trône d'argent,
Et tient cercle avec les étoiles,
Le ciel est toujours clair tant que dure son cours,
Et nous avons des nuits plus belles que vos jours.

Jean Racine, A Monsieur Vitart

sábado, 27 de outubro de 2007

Iluminado











Júlio Resende - Porto, 23 de Outubro de 1917 -

"
Na pintura tentei exprimir um acto de fé em defesa da harmonia e se esta atitude foi uma virtude, os resultados o demonstrarão".
"Tudo o que sei aprendi com o meu semelhante, desde o mais humilde ao mais sábio".
"Desde que me reconheci vivo, tenho capacidade de ver e amar e, a partir dos dez, doze anos dei prova disso, através dos desenhos de estórias inventadas que apareceram nas publicações da época. Na minha profissão de professor sempre abracei a de pintor, actividades que me preencheram a totalidade de uma vida."
"Por meritória que seja a análise do crítico, o artista reage a um processo que vem do seu íntimo, e não haverá dois semelhantes. As classificações são parâmetros históricos e temperamentais, mas sempre teorias".
"Vejo e sinto a arte como uma espécie de caminho para um mundo mais fraterno e, essencialmente, como um sinal de vida".

Lamento:"Se fosse hoje não teria oferecido o painel Ribeira Negra à Câmara do Porto, uma vez que a obra permanece há vários anos encaixotada nos armazéns camarários."

Vau de um afluente a necessitar de uma drenagem criptorreica:
"Dado tratar-se de uma obra de grande dimensão será exposta quando houver um local" - o edil actual.

"Ribeira Negra": técnica mista sobre tela com 3 x 40 metros
Segurada em 500 mil euros
Considerada a Guernica portuguesa; representa um marco incontestável da condição social humana.


Exposições: Museu da Alfândega
"Pinturas recentes " - Fundação Júlio Resende
"Evocação dos 10 anos do Lugar do Desenho" - Fundação Júlio Resende

Excertos de entrevistas a O Primeiro de Janeiro e Jornal de Notícias

sexta-feira, 26 de outubro de 2007

Grito



Cedros, abetos,
pinheiros novos.
O que há no tecto
do céu deserto,
além do grito?
Tudo que é nosso.

São os teus olhos
desmesurados,
lagos enormes,
mas concentrados
nos meus sentidos.
Tudo o que é nosso
é excessivo.

E a minha boca,
de tão rasgada,
corre-te o corpo
de pólo a pólo,
desfaz-te o colo
de espádua a espádua,
são os teus olhos,
depois o grito.

Cedros, abetos,
pinheiros novos.
É o regresso.
É no silêncio
de outro extremo
desta cidade
a tua casa.
É no teu quarto
de novo o grito.

E mais nocturna
do que nunca
a envergadura
das nossas asas.
Punhal de vento,
rosa de espuma:
morre o desejo,
nasce a ternura.
Mas que silêncio
na tua casa.

David Mourão Ferreira
Imagem:Popel Coumou

quinta-feira, 25 de outubro de 2007

Mãos - Libertas são



O lançamento anunciado do novo álbum fotográfico de Sebastião Salgado intitulado África e em particular um subtítulo "como o barro espera pelas mãos" trouxe-me à memória As mãos dos Pretos, conto do escritor moçambicano Bernardo Honwana. Nele se ensaiam vertentes explicativas para a “coisa de as palmas das mãos dos pretos serem mais claras”,ilustrativas do espírito colonialista de quem as emite.

No texto, um rapazinho, é confrontado inicialmente com a versão do Senhor Professor, o qual assevera ser " porque ainda há poucos séculos os avós deles andavam com elas apoiadas ao chão, como os bichos do mato”; o Senhor Padre, por sua vez, avança com um "pio" “porque eles, às escondidas, andavam sempre de mãos postas, a rezar”.

Das mulheres, donas de casa e dedicadas "fadas do lar", destaque para a Dona Dores: “Deus fez-lhes as mãos assim mais claras para não sujarem a comida que fazem para os seus patrões ou qualquer outra coisa que lhes mandem fazer e que não deva ficar senão limpa”; e um certo livro informa, mais tarde, “que os pretos têm as mãos assim mais claras por viverem encurvados, sempre a apanhar o algodão branco de Virgínia e de mais não sei onde”.O Senhor Antunes da Coca-Cola ironiza remetendo-nos para os tempos longínquos e míticos da Criação do Mundo...até que a criança recorre à mãe. O seu riso é a denúncia da tacanhez daqueles "espíritos" e, unificadora, contrapõe:

"Deus fez os pretos porque tinha de os haver. Tinha de os haver, meu filho. Ele pensou que realmente tinha de os haver... Depois arrependeu-se de os ter feito porque os outros homens se riam deles e levavam-nos para as casas deles para os pôr a servir como escravos ou pouco mais. Mas como Ele já os não pudesse fazer ficar todos brancos porque os que já se tinham habituado a vê-los pretos reclamariam, fez com que as palmas das mãos deles ficassem exactamente como as palmas das mãos dos outros homens. E sabes por que é que foi? Claro que não sabes e não admira porque muitos e muitos não sabem. Pois olha: foi para mostrar que o que os homens fazem, é apenas obra de homens... Que o que os homens fazem, é feito por mãos iguais, mãos de pessoas que, se tiverem juízo, sabem que antes de serem qualquer outra coisa são homens. Deve ter sido a pensar assim que Ele fez com que as mãos dos pretos fossem iguais às mãos dos homens que dão graças a Deus por não serem pretos."

Em seguida beija as mãos ao seu filho. Satisfeito com a resposta, o garoto afasta-se para brincar, recordando com espanto, o pranto copioso e "imotivado" da sua mãe.
Imagem: Joe Sorren