"Convite para uma chávena de chá de jasmim"


domingo, 4 de novembro de 2007

Edilidade, Invisualidade, Imbecilidade, Irresponsabilidade...e afins

Casa Manoel de Oliveira

Ideia: Homenagem a "filho da terra"
Meio: Construção de casa dupla
Intenção: Habitação do próprio e museu
Pormenor: Surpresa!!!
Decalque: Fundação Eugénio de Andrade
Local: Foz, pois claro!
Data do projecto: 1998


Arquitecto a contratar: de nomeada
Custo: xiiiiiiiiiiiiiii
Reacção antecipada: Agradecimento; comoção
Dividendos: Notoriedade; atenção e reconhecimento; alta-cultura!
Reacção do visado: Negativa - há quem não goste de surpesas
Reacção2 do visado : Já tenho casa; sou secular
Contra-proposta: Ora bem...que tal criar uma Fundação?

...A Câmara Municipal do Porto encomendou a obra ao arquitecto Souto Moura...

...O ex-presidente da autarquia, Nuno Cardoso, fez questão de assinalar o lançamento da primeira pedra...

... Manoel de Oliveira nunca garantiu a cedência do acervo...

... Em Julho ambos os espaços tinham sido vandalizados e assaltados...

... Na sequência de reportagem da SIC, a Câmara transferiu para o espaço um serviço da autarquia...

...O realizador de quase cem anos procura apoios para criar uma fundação...

... A última reunião com a autarquia foi há mais de dois anos...

... Rui Rio não aceitou gravar nenhuma entrevista com a SIC alegando que não quer dar “visibilidade a advogados que apenas querem protagonismo”...

... O problema arrasta-se há 10 anos...

... O presidente da Câmara decidiu agora instalar a Divisão de Património Cultural da Câmara naquele espaço destinado ao espólio do realizador...

...Temporariamente, dizem os responsáveis...

... A mudança está marcada para Novembro...

in Sic Online
17 /10 /2007

Borrões na pintura


«Ribeira Negra»


... originais expostos definitivamente no edifício da Alfândega do Porto ...


... local muito perto da zona que inspirou o mestre...

... Câmara do Porto manteve encaixotados os originais por mais de 20 anos ...

...O presidente da autarquia reconheceu que a Câmara do Porto podia ter encontrado há mais tempo um lugar de exposição permanente ...


...«Não era fácil porque era preciso uma parede muito grande, superior a quarenta metros», salientou Rui Rio ...


...O autarca só ficou a saber da existência dos originais há poucos meses, quando foram expostos, no Verão, na Bienal de Vila Nova de Cerveira ...


...O galerista Agostinho Cordeiro defendeu que a obra merecia um lugar mais apropriado, como o Museu de Serralves ...


...Opinião contestada por Carlos Brito, presidente da Associação para o Museu dos Transportes e Comunicações, gestora do edifício da Alfândega...


...Carlos Brito era vereador da Câmara do Porto quando Júlio Resende ofereceu os originais à autarquia...


...Carlos Brito considerou a Alfândega um local «espectacular» por ser palco de grandes eventos internacionais e receber anualmente a visita de milhares de crianças...


in Diário Digital / Lusa
31-10-2007 14:08:00

sábado, 3 de novembro de 2007

William Henry Fox Talbot



Pioneiro da fotografia, o seu contributo para o aperfeiçoamento do processo de revelação é decisivo. Síntese do homem do Renascimento com o do Iluminismo, os seus interesses e conhecimentos incluíam áreas tão abrangentes como a engenharia, agricultura, comércio, política, filosofia e religião a par de outras disciplinas: matemática, física, química. O estudo realizado sobre as propriedades da luz e as lentes trouxe-nos o "retrato fotogénico" - a fotografia. Enquanto filólogo destacou-se pelo estudo dos clássicos, pelo domínio de várias línguas latinas, além de hebraico e grego. Autor de "Legendary Tales" (1830) , nele reconhecemos ambientes próprios do Romantismo, fruto de uma visão poetizada e imaginativamente clara do mundo.
Viveu entre 1800 e 1877.

Imagens:
Botanical specimen Leaf of a Plant (1839)
Oak Tree in Winter (1842/43)
Breakfast Table (1840)



A single photograph
- portrait of the moment -
is an inexhaustible epic,
a living tale beyond words
superior to a hundred volumes
written and fixed.

A photograph is consciousness painting,
the instant's art that opens
on the unbounded vistas
of the inner life.


Daisaku Ikeda
From "Eternal Voyagers toward the Light of Peace,"
a poem dedicated to Robert and Cornell Capa
.


sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Os Mortos


Os mortos sentam-se à mesa
mas sem tocar na comida;
ora fartos, já não comem
Senão côdeas de infinito.

Quedam-se esquivos, longínquos,
como a escutar o estribilho
do silêncio que desliza
sobre a medula do frio.

Não desvendo, embora lisas,
suas frontes, onde a brisa
tece uma tênue grinalda
de flores que não se explicam.

Nos beirais a lua afia
seu florete de marfim.
(Sob as plumas da neblina,
os mortos estão sorrindo:

um sorriso que, tão tíbio,
não deixa sequer vestígio
de seu traço quebradiço
na concha azul do vazio.)

Quem serão estes assíduos
morros que não se extinguem?
De onde vêm? Por que retinem
sob o pó de meu olvido?

Que se revelem, definam
os motivos de sua vinda.
Ou então que me decifrem
seu desígnio: pergaminho.

Sei de mortos que partiram
quase vivos, entre lírios;
outros sei que, sibilinos,
furtaram-se a despedidas.

Lembro alguns, talvez meninos,
que se foram por equívoco;
e outros mais, algo esquecidos
que de si mesmos se iam.

Mas estes, a que família
de mortos pertenceriam?
A que clã, se não os sinto
visíveis, tampouco extintos?

Ou quem sabe não seriam
mortos de morte, mas sim
de vida: imagens em ruínas
na memória adormecidas.

Mas eles, em seu ladino
concílio, disfarçam, fingem
não me ouvir. E seu enigma
(
névoa) no ar oscila e brinca.

Os Mortos, Ivan Junqueira
Imagem: Cao Fei

Outro Testamento
Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.
Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.
Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.
Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.
Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.
Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.
Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.

Quando eu morrer, Vitorino Nemésio




quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Dia de Todos-os-Santos


Assinalando este dia sem recorrer a tradições importadas - eis o resultado de uma breve pesquisa:


A Igreja Católica celebra a Festum Omnium Sanctorum a 1 de Novembro seguida do Dia dos Fiéis Defuntos a 2 de Novembro. Esta tradição de recordar (fazer memória) os santos está na origem da composição do calendário litúrgico, em que constavam inicialmente as datas de aniversário da morte dos cristãos martirizados como testemunho pela sua fé, realizando-se nelas orações, missas e vigílias, habitualmente no mesmo local ou nas imediações de onde foram mortos, como acontecia em redor do Coliseu de Roma. Posteriormente tornou-se habitual erigirem-se igrejas e basílicas dedicadas em sua memória nesses mesmos locais.

Em Portugal, no dia de Todos-os-Santos as crianças saem à rua e juntam-se em pequenos grupos para pedir o Pão-por-Deus de porta em porta, recitando versos; recebem como oferenda pão, broas, bolos, romãs e frutos secos: nozes, amêndoas ou castanhas que colocam dentro de sacos de pano. É também costume, em certas regiões, os padrinhos oferecerem um bolo: o Santoro. Em algumas povoações chama-se a este dia o ‘Dia dos Bolinhos’.


Este meu Portugal desconhecido....

in Wikipédia




quarta-feira, 31 de outubro de 2007

O impostor inverosímil



Dou-lhe esse nome - Tom Castro - porque sob esse nome o conheceram nas ruas e nas casas de Talcahuano, de Santiago do Chile e de Valparaíso, por volta de 1850, e é justo que o assuma outra vez, agora que regressa a estas terras - pelo menos na qualidade de mero fantasma (...).

O registo de nascimento de Wapping chama-lhe Arthur Orton e regista-o no dia 7 de Junho de 1834. Sabemos que era filho de um carniceiro, que a sua infância conheceu a miséria insípida dos bairros miseráveis de Londres e que sentiu o apelo do mar. O facto não é insólito. Run away to sea, fugir para o mar é a rotura tradicional inglesa da autoridade dos pais, a iniciação heróica. A geografia recomenda-a e até a Escritura (Salmos, 107): Os que se fizeram ao mar nos seus navios, / para comerciarem nas grandes águas, / esses viram as obras do Senhor, e as suas maravilhas no alto mar. (...)


Era um homem de uma tranquila idiotice. Logicamente, teria podido (e devido) morrer de fome, mas a sua confusa jovialidade, o seu permanente sorriso e a sua infinita mansidão atraíram-lhe o favor de uma certa família Castro, cujo nome adoptou. (...)


Em Sidney conheceu um tal Bogle, um criado negro. (...) Tinha a solidez de uma obra de engenharia (...) e a súbita ideia genial. Orton viu-o numa arruinada esquina (...) ao criar alento para enfrentar a imaginária morte. Depois de o ter olhado longamente, ofereceu-lhe o braço e, assombrados, atravessaram os dois a rua inofensiva. Desde esse instante dum entardecer já defunto, um protectorado se estabeleceu: o do negro inseguro e monumental sobre o obeso pateta de Waping. Em Setembro de 1865, ambos leram num diário local um desolado aviso.


Em fins de Abril de 1854 naufragou nas águas do Atlântico o vapor Mermaid, procedente do Rio de Janeiro, com rumo a Liverpoool. Entre os que pereceram estava Roger Charles Tichborne. Lady Tichborne, horrorizada mãe de Roger, recusou-se a acreditar na sua morte e publicou desolados avisos nos jornais de mais vasta circulação. Um desses avisos caiu nas brandas mãos fúnebres de Bogle, que concebeu um plano genial.


Tichborne era um esbelto cavalheiro de ar concentrado, de traços agudos, tez morena, o cabelo grosso e lasso, os olhos vivos e a palavra de uma exactidão já incómoda; Orton era um parolo sem maneiras, de vasto abdómen, traços de uma infinita inexpressividade, cútis a atirar para sardenta, cabelo castanho encaracolado, olhos dorminhocos e a conversação ausente ou confusa. Bogle inventou que o primeiro dever de Orton era embarcar no primeiro vapor para a Europa e satisfazer a esperança de Lady Tichborne, declarando ser seu filho.


(...) Apresentou um Tichborne fofo, com um sorriso amável de imbecil, cabelo castanho e uma irrecuperável ignorância do idioma francês. Bogle sabia que um fac-símile perfeito do ansiado Roger Charles Tichborne era de impossível obtenção. Sabia também que todas as similitudes conseguidas não fariam mais do que destacar certas diferenças inevitáveis. Renunciou, portanto, a todas as parecenças. Intuiu que a enorme inépcia da pretensão seria uma prova convincente de não se tratar de uma fraude, que descobriria desse modo flagrante os traços mais simples da convicção. Não deve esquecer-se tão-pouco a colaboração omnipotente do tempo: catorze anos de hemisfério austral e de azar podem modificar um homem.


Em 16 de Janeiro de 1867 Roger Charles Tichborne anunciou-se (...) a mãe reconheceu o filho pródigo e abriu-lhe o seu abraço. (...) Lady Tichborne morreu em 1870 e os parentes apresentaram queixa contra Artur Orton por usurpação do estado civil. (...) Outras denúncias se seguiram (...)

Cento e noventa dias durou o processo. (...) Bogle foi implorar uma terceira iluminação pelas ruas de Londres. Não saberemos nunca se a encontrou (...) apanhou-o o terrível veículo que desde o fundo dos anos o perseguia. (...) Os cascos do cavalo famélico partiram-lhe o crânio.


Tom Castro era o fantasma de Tichborne, mas um pobre fantasma habitado pelo génio de Bogle. Quando lhe disseram que este morrera, aniquilou-se. Continuou a mentir mas com um entusiasmo escasso e contradições disparatadas. Era fácil prever o fim.


Em 27 de Fevereiro de 1874, Artur Orton, por alcunha Tom Castro, foi condenado a catorze ans de trabalhos forçados. Na prisão tornou-se querido; era o seu ofício. O seu comportamento exemplar valeu-lhe uma amnistia de quatro anos. Quando essa hospitalidade final o deixou - a da prisão - percorreu as ruas e os centros do Reino Unido, pronunciando pequenas conferências em que declarava a sua inocência ou afirmava a sua culpa. A sua modéstia e o anseio de agradar eram tão duradouros que em muitas noites começou por defender-se e acabou por confessar, sempre de acordo com as inclinações do público.

Morreu em 2 de Abril de 1898


in História Universal da Infâmia

Jorge Luís Borges


Liebe


Liebe berauscht, sagt man.
Liebe ernüchtert, sagt man.
Liebe läßt klar sehen, sagt man.
Liebe macht blind.
Liebe verdirbt.
Liebe veredelt.
Liebe stärkt.
Liebe schwächt.
Liebe bringt Pein,
und Liebe bringt Glück.
Wo, wer ist jener Sagtman?
Liebe macht gar nichts,
erwidere ich ihm.
Wir machen die Liebe zu dem,
was sie uns wird.

Gottfried Keller

Imagem: Mónica Santos