sexta-feira, 19 de outubro de 2007
Mulheres de Atenas

Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seu maridos, orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos, poder e força de Atenas
Quando eles embarcam, soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam sedentos
Querem arrancar violentos
Carícias plenas
Obscenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos, bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar o carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas
Helenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos, só têm presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas
Serenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos, orgulho e raça de Atenas
Chico Buarque - Augusto Boal, 1976
Imagem: Diego Rivera - The flower seller
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quinta-feira, 18 de outubro de 2007
Envelhecer

Gosto das mulheres que envelhecem,
com a pressa das suas rugas, os cabelos
caídos pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza
dos reposteiros. Essas mulheres sentam-se
nos cantos das salas, olham para fora,
para o átrio que não vejo, de onde estou,
embora adivinhe aí a presença de
outras mulheres, sentadas em bancos
de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem
sentem que as olho, que admiro os seus gestos
lentos, que amo o trabalho subterrâneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
que o dia corra nesta sala sem luz,
evitam sair para a rua, e dizem baixo,
por vezes, essa elegia que só os seus lábios
podem cantar.
Nuno Júdice, Mulheres que envelhecem
quarta-feira, 17 de outubro de 2007
percorrendo caminhos

"There are More Things" - (Excerto)
À memória de Howard P. Lovecraft
Naquela noite não dormi. Pela madrugada sonhei com uma gravura à maneira de Piranesi, que nunca tinha visto ou que tinha visto e esquecido, e que representava o labirinto. Era um anfiteatro de pedra, cercado de ciprestes e mais alto que as copas dos ciprestes. Em vez de portas e janelas, havia uma fileira infinita de frestas verticais e estreitas. Com uma lupa, eu procurava ver o minotauro. Por fim avistei-o. Era o monstro de um monstro; tinha menos de touro que de bisonte e, estendido por terra o corpo humano, parecia dormir e sonhar. Sonhar com quê ou com quem?
in O Livro de Areia ,1975, Jorge Luis Borges
O Labirinto
É este o labirinto de Creta. É este o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. É este o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações. É este o labirinto de Creta cujo centro foi o minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações, como María Kodama e eu nos perdemos. É este o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações, como María Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo , esse outro labirinto.
in Atlas,1984
Jorge Luis Borges
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terça-feira, 16 de outubro de 2007
Espaço para sonhar ?

“O homem caminha durante dias pelo meio das árvores e pedras. Raramente o olho se detém sobre alguma coisa, e só quando a reconhece pelo sinal de outra coisa: uma pegada na areia indica a passagem do tigre; um pântano anuncia um veio de água; a flor do hibisco o fim do Inverno. Tudo o resto é mudo e inter cambiável; árvores e pedras são só o que são.
Finalmente a viagem conduz à cidade de Tamara. Entra-se nela por ruas pejadas de letreiros que sobressaem das paredes. Os olhos não vêem coisas mas sim figuras de coisas que significam outras coisas: a tenaz indica a casa do arranca-dentes; a garrafa a taverna; a alabarda o corpo da guarda; a balança romana a ervanária. Estátuas e escudos representam leões, golfinhos torres estrelas: sinal de que qualquer coisa – sabe-se lá o quê – tem por símbolo um leão, ou golfinho ou torre ou estrela.
Outros sinais avisam de que num local é proibido – entrara no beco com as carroças, urinar atrás do quiosque, pescar com cana do alto da ponte – e do que é lícito – dar de beber às zebras, jogar à bola, queimar os cadáveres dos parentes. (…) Se um edifício não tiver nenhum letreiro ou figura, a sua própria forma e o lugar que ocupa na ordem da cidade bastam para indicar a sua função: o palácio real, a prisão, a fundição da moeda, a escola de aritmética, o bordel.
Até as mercadorias que os vendedores põem em exposição nas bancas valem não por si próprias mas como sinais de outras coisas: a fita bordada para a fronte quer dizer elegância; a liteira dourada poder; os volumes de Averróis sapiência; a pulseira para o tornozelo volúpia. O olhar percorre as ruas como páginas escritas: a cidade diz tudo o que devemos pensar, faz-nos repetir o seu discurso, e enquanto julgamos visitar Tamara limitamo-nos a registar os nomes com que ela se define a si mesma e todas as suas partes.
Como realmente é a cidade sob este denso invólucro de sinais, o que ela contém ou oculta, o homem sai de Tamara sem tê-lo sabido. Fora dela espraia-se a terra vazia até ao horizonte, abre-se o céu por onde correm as nuvens. Na forma que o acaso e o vento dão às nuvens o homem fica logo absorvido a reconhecer figuras: um veleiro, uma mão, um elefante…”
in As Cidades Invisíveis, Italo Calvino, Teorema pp 17-18
Imagem. R. Magritte
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Literatura
segunda-feira, 15 de outubro de 2007
teAuTRANo

Rio de Janeiro, 7 de Setembro de 1922 — São Paulo, 12 de Outubro de 2007
"Minha paixão é o teatro,exclusivamente. Minha programação para televisão é não fazer(...)Vejo uma mediocridade de televisão o tempo todo, enjoei.
Entrei numa loja em São Paulo, tinha uma senhora, até bem vestida, que veio tentar falar comigo (...)perguntei a ela se ela não ia ao teatro e ela disse, "Vou sempre, chego em casa, a primeira coisa que faço é ligar a televisão. Para teatro era a televisão. E não era uma mendiga de rua.
(...)Qual é a profissão estável? Qual a situação estável? Uma das coisas mais interessantes na vida é que estabilidade não existe. Você casa, pensa que agora realizou sua vida, e infelizmente o casamento acaba. Vai ser funcionário publico, muda o governo, e você é despedido. Qualquer profissão é instável. A vida é instável.
Todo mundo diz que eu soube construir muito bem a minha carreira. Um pensamento que nunca passou pela cabeça.(...)Fui sempre escolhendo pelo o que eu lia, gostava, o que achava necessário ser falado naquele momento. Cada momento é um critério diferente que a gente tem."
in Globo Online
Thiago Augusto- Entrevista originalmente publicada na Revista Centelha,
Imagem:paginas.terra.com.br
domingo, 14 de outubro de 2007
Diferença, humildade, preserverança e talento..merecido reconhecimento. Que seja duradouro!

Paul Potts:"I keep waiting for someone to pinch me and say 'Wake up, Paul, it's time for work - you're late again'. I feel like I'm on a rollercoaster - a white knuckle ride into the unknown. And I don't want to get off!"
"Britain's Got Talent winner Paul Potts has spent most of his life feeling 'insignificant'. Bullied at school for being 'different', he realised growing up that he had one true friend and that was his voice. Singing was his escape. He was able to lose himself in his own little world - the vicious words of his tormentors replaced by hauntingly beautiful lyrics and melodies that lifted his heart and spirit. It was a love, a passion, a lifeline that would follow Paul into adulthood and help him through many more periods of adversity.(...)
Born just outside Bristol on October 13, 1970, to bus driver Roland and his wife Yvonne, a supermarket cashier, Paul - who's one of four children
- was singing almost from the moment he could talk.(...)
By the time he reached 11, he was part of one of the best church choirs in Bristol. But it was when he hit 16 that his love of opera took hold. "I bought a cheap recording of Carreras," he recalls. "It was the first time I had heard Che Gelida Manina (Your Tiny Hand Is Frozen) and I was so moved by it. To this day La Boheme remains my favourite opera."
Although Paul has performed at amateur level, most notably with Bath Opera, his chronic lack of self esteem and fear of rejection always prevented him from trying to make it professionally. " As I saw it, if I never asked - never put myself out there - then I'd never get told "No",'says Paul. "It was safer that way."
So instead, he carried on with his day jobs - which have included stacking shelves in a supermarket and, most recently and famously, selling mobile phones, where he was told by one of his superiors that he was a 'natural salesman'. "But I knew I wasn't," says Paul.(...)
In 2000, Paul used savings and a bit of money he'd won on a quiz show to attend a three-month summer school in Italy, where he learned the language.(...)In 2003, he suffered a burst appendix. While undergoing treatment for this, doctors discovered a benign tumour on his adrenal gland. It was successfully removed but while he was recovering, he was knocked off his bike and broke his collarbone. "Of all the health problems I'd been through, breaking my collar bone was the most painful and it took months to recover," says Paul. " I got very, very low and for once, singing was the last thing on my mind."
And he might have given up forever, had it not been for Britain's Got Talent - the talent show for today's generation.(...)Paul strolled awkwardly - almost apologetically - onto the Cardiff stage for his first Britain’s Got Talent audition a week before that final, in his now infamous £35 Tesco suit, and announced to Simon and fellow judges that he was going to sing opera. (..)
"A humble bloke who's not even aware of his amazing gift - Paul
Potts is a true star" wrote one.
"It has changed my whole life. I used to feel so small and insignificant.
But now I know I am someone - I am Paul Potts and this is what I do,"
smiles Paul.
But don't worry - there's no danger of him going all starry and getting above himself! "I am not going to change - although I might invest in some nicer suits! But whatever happens, I'm keeping that Tesco one. It's a reminder of where I was and where I attempt to remain - except in better clothes!"
Paul also hopes to get his teeth done. "I don't think I'd suit one of those dazzling Hollywood smiles, but I'd like to get the cap sorted as I'm very conscious about it when I sing." Other plans for the £100,000 prize money include taking proud wife Julie-Ann, 27, who he wed four years ago, on safari - and, fingers crossed, starting a family.
"It's something we couldn't afford to think about before," explains Paul, who lives with Julie-Ann in a modest two bedroomed house in Port Talbot, south Wales. "Now we can and that would complete things. (...)Finally, I am going to be doing what I've always felt I was put here to do - something I love and that gives me so much joy".
from http://www.paulpottsuk.com/article/biography
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