"Convite para uma chávena de chá de jasmim"


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terça-feira, 25 de dezembro de 2007

Deuses


Árvores

Parece-me que nunca ninguém há-de
Ver poema tão belo como a árvore.
Árvore que sua boca não desferra.
Do seio doce e liberal da terra.


Árvore, sempre de Deus a ver imagem
E erguendo em reza os braços de folhagem.
Árvore que pode usar, como capelo,
Ninhos de papo-ruivo no cabelo;


Em cujo peito a neve esteve assente;
Que vive com a chuva intimamente.
Os tontos, como eu, fazem poesia;
Uma árvore, só Deus é que a faria.


Joyce Kilmer

segunda-feira, 24 de dezembro de 2007

N... de Natal





Bucólica

Vêm do olival os cestos
Sendas por pastagens e lameiros,
À mistura de verbena e dos teus risos.
Na telha de rebordo dos beirais
O rumor do vento. Ninhos em rama
Presos às goteiras. Passos
Pelo chão de urtigas.
Azeite cru na torcida das candeias.
Azeite velho sobre sêmea torrada.
E bagaço. E a alegria das mãos sujas.
Ervas brancas e resedas
Cobrem as cântaras de leite.
Vai anoitecer para nós partirmos.

Joaquim Manuel Magalhães

domingo, 23 de dezembro de 2007

Convite



Vem aqui, de Creta, a este templo


Vem aqui, de Creta, a este templo
sagrado, onde há um gracioso
bosque de macieiras e altares
onde arde o incenso.


Aqui a água fresca
canta através dos ramos
das macieiras, a sombra
das roseiras cobre todo o recinto
e das trémulas folhas
desce um sono pesado.


Aqui, o prado onde pastam os cavalos
já se cobriu de flores
primaveris e as brisas
sopram suavemente…


Vem, pois, ó cípris, coroada de grinaldas,
e derrama graciosamente nas douradas taças
o néctar associado aos festins.

Safo (VII-VI a.C.)

sexta-feira, 21 de dezembro de 2007

Proporção :)



A vida perfeita

Não é crescendo à toa,

Como as árvores, que alguém se aperfeiçoa;

Não como o roble, em pé trezentos anos,

E ser madeiro enfim, calvo, seco sem ramos.

Esse lírio de um dia,

Em Maio, tem mais valia,

Mesmo que à noite caia já sem cor:

Foi a planta da luz, era o sol a flor.


Em justas proporções a beleza se ajeita,

E só num ritmo breve é que a vida é perfeita.


Ben Jonson



quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Lugares



No lugar da árvore


No lugar da árvore. No lugar do ouvido.

No lugar do chão. Unidade crepitante

no silêncio aberto no Trânsito. Tronco, calma

bomba indeflagrável, dádiva da identidade.

António Ramos Rosa

quarta-feira, 19 de dezembro de 2007

Evocação



Azagaia, Árvore, Sombra


Há objectos que perseguem a nossa infância,
depois, vida fora, esquecem-se os seus mágicos nomes,
a sonhada utilidade que os anima.


Poderíamos pressenti-los dentro de nós,
e isso sucede, por instantes, quando o fundo que os obscurece
se ilumina de repente
e os distinguimos a contra-luz.

Silhuetas animam-se na memória. Uma breve,
quase acessória, viagem no tempo começa.


Luís Quintais

terça-feira, 18 de dezembro de 2007

Testemunhas



Árvore

Sei perfeitamente que uma árvore é um símbolo
obscuro da nossa vida, principalmente da nossa vida
que não houve. Mas mesmo assim
dentro das ruas, dentro das casas
as árvores têm um outro entendimento
um mistério muito delas
- e não completamente inventados -
pois não desprezam a agonia dos homens, o choro dos homens
o seu riso, a sua fome, os sinais todos
que o Homem podia e devia ter.


As árvores começam e acabam sem amor
e sem ódio


Nicolau Saião


segunda-feira, 17 de dezembro de 2007

Exuberante





Árvore Rumorosa

Árvore rumorosa pedestal da sombra
sinal de intimidade decrescente
que a primavera veste pontualmente
e os olhos do poema de repente deslumbra


Receptáculo anónimo do espanto
capaz de encher aquele que direito à morte passa
e no ar da manhã inconsequente traça
e rasto desprendido do seu canto


Não há inverno rigoroso que te impeça
de rematar esse trabalho que começa
na primeira folha que nos braços te desponta


Explodiste de vida e és serenidade
e imprimes no coração mais fundo da cidade
a marca do princípio a que tudo remonta


Ruy Belo

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

ViVer


O pequeno demiurgo

escrevo barco e uma quilha fende o vastíssimo mar

as árvores crescem dos espaços enevoados

entre olhar e olhar movem-se

animais presos à terra com as suas plumagens de ferro

e de orvalho de ouro quando a lua se eclipsa

comunicando-lhes o cio e a nómada alegria de viver

Al Berto

quinta-feira, 13 de dezembro de 2007

Saudades do Futuro



As Árvores

Eu espero, sim, que essas árvores cresçam. Adormeço com elas todas as noites, embalado pela sua sombra. Lembro-as de memória, sobre a relva verde. Lembro as suas folhas, caindo de noite. Mesmo as que ainda não vi, eu espero que cresçam, que me esperem, que me abriguem nesse dia em que mais precisarei delas, ouvindo o ruído do mar não muito longe. Tenho, a cada minuto, saudades dessas árvores.


Francisco José Viegas

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Pão Doce :)


Aqui mereço-te
(...)

Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.

Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.

É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.

É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hábito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.


António Ramos Rosa

terça-feira, 11 de dezembro de 2007

à Nous



Printemps


Il y a sur la plage quelques flaques d'eau

Il y a dans les bois des arbres fous d'oiseaux

La neige fond dans la montagne

Les branches des pommiers brillent de tant de fleurs

Que le pâle soleil recule



C'est par un soir d'hiver dans un monde très dur

Que je vis ce printemps près de toi l'innocente

Il n'y a pas de nuit pour nous

Rien de ce qui périt n'a de prise sur toi

Et tu ne veux pas avoir froid



Notre printemps est un printemps qui a raison.

Paul Élouard

segunda-feira, 10 de dezembro de 2007

Pomos



Árvore, cujo pomo, belo e brando

Árvore, cujo pomo, belo e brando,
natureza de leite e sangue pinta,
onde a pureza, de vergonha tinta,
está virgíneas faces imitando;


nunca da ira e do vento, que arrancando
os troncos vão, o teu injúria sinta;
nem por malícia de ar te seja extinta
a cor, que está teu fruito debuxando.


Que pois me emprestas doce e idóneo abrigo
a meu contentamento, e favoreces
com teu suave cheiro minha glória,

se não te celebrar como mereces,
cantando-te, sequer farei contigo
doce, nos casos tristes, a memória.

Luís Vaz de Camões

sábado, 8 de dezembro de 2007

Ceres e Seres



Cada árvore é um ser para ser em nós

Cada árvore é um ser para ser em nós

Para ver uma árvore não basta vê-la

a árvore é uma lenta reverência

uma presença reminiscente

uma habitação perdida

e encontrada



À sombra de uma árvore

o tempo já não é o tempo

mas a magia de um instante que começa sem fim

a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas

e de sombras interiores

nós habitamos a árvore com a nossa respiração

com a da árvore

com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses



António Ramos Rosa


sexta-feira, 7 de dezembro de 2007

Thoughts



Tree at my window


Tree at my window, window tree,

My sash is lowered when night comes on;

But let there never be curtain drawn

Between you and me.



Vague dream-head lifted out of the ground,

And thing next most diffuse to cloud,

Not all your light tongues talking aloud

Could be profound.



But tree, I have seen you taken and tossed,

And if you have seen me when I slept,

You have seen me when I was taken and swept

And all but lost.



That day she put our heads together,

Fate had her imagination about her,

Your head so much concerned with outer,

Mine with inner, weather.

Robert Frost

PartnerShips

Ayer determinaron tu presente
Libre de los ineptos deseos de ayer.
Alégrate de que sin esfuerzo tuyo
Mañana esté también trazado para tí.
Pero mientras el Eterno me eres
Palabra por palabra explicaba
mi lección, amor,
Y tomó mi corazón y de un fragm
formó
Llaves del almacén de la Realidad


Ruba-I-Yyat Omar Al-Jayyam

quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Uma Árvore e um Dia

A espessura da árvore
é branca

A casa repercute
os favos de silêncio

Ouço a medula da madeira
o pudor do silêncio jovem

O sangue circula sem bandeiras
ri na brancura
do corpo

Um rosto sob a cabeleira
rompe
no ardor do instante
em relâmpagos de ternura

Todas as hastes livres nascem
do quadrado aberto
sobre o rio

A palavra é um rosto que deixa ver o branco
do seu tremor

Do branco ao negro o branco
fogo
de uma árvore que estala em cada mão

O tronco antigo
é a casa nova
nos seus ramos vivos

Não uma escrita invulgar mas como as ervas
pobres. Como as pedras.

Tu poderás captar o esplendor
chamar-lhe-ás suave sob um sono de árvores.

Caminharás entre as plantas. Sentirás a sua sede.
E o olhar abrir-se-á no escuro fresco.

Ninguém te dirá que não te perdes na
densa água negra. Ou no branco papel.

Nunca apagarás o desejo.
Nem desistirás de procurar o lugar
ainda que lhe chames ausência.

Procura e não procures. Não existe um centro.
Mas a clareira por vezes
de súbito retém-nos.

António Ramos Rosa
A Espessura é Branca


Internacional, Interior




Frohlichen Nikolaus

A criança que pensa em fadas e acredita nas fadas
Age como um deus doente, mas como um deus.
Porque embora afirme que existe o que não existe
Sabe como é que as cousas existem, que é existindo,
Sabe que existir existe e não se explica,
Sabe que não há razão nenhuma para nada existir,
Sabe que ser é estar em um ponto
Só não sabe que o pensamento não é um ponto qualquer.
Alberto Caeiro,
A Criança
Was die Kinder in der Weihnachtszeit in ihren Träumen sehen,werden große Leute so wie ihr wohl niemals ganz verstehen.
Jedes Kind macht sich sein eigenes Bild und es glaubt ganz fest daran,darin gibts bestimmt den Nikolaus und auch den Weihnachtsmann.


Nikolaus und Weihnachtsmann - Rolf Zuckowski

terça-feira, 20 de novembro de 2007

Porque..sim

Uma senhora pediu-me
um poema de amor.

Não de amor por ela,
mas «de amor, de amor».

À parte aquelas
trivialidades «minha rosa, lua do meu céu interior»
que podia eu dizer
para ela, a não destinatária,
que não fosse por ela?

Sem objecto, o poema
é uma redacção
dos 100 Modelos
de Cartas de Amor.

Alexandre O'Neill


O amor é o amor - e depois?
Vamos ficar os dois

a imaginar, a imaginar?...

O meu peito contra o teu peito
cortando o mar, cortando o ar.
Num leito
há todo o espaço para amar!

Na nossa carne estamos
sem destino, sem medo, sem pudor,
e trocamos - somos um? somos dois? -
espírito e calor!

O amor é o amor - e depois?

Herberto Hélder - O Amor é o Amor (1960)
Imagem: J. Pollock - Full Fathom-Five, Detail (1947)

J. Pollock - Full Fathom-Five, Full

sexta-feira, 16 de novembro de 2007

Lernen - wozu...? Um...zu...

1940

Mein junger Sohn fragt mich: Soll ich Mathematik lernen?
Wozu, möchte ich sagen. Daß zwei Stücke Brot mehr ist als eines
Das wirst du auch so merken.

Mein junger Sohn fragt mich:Soll ich Französisch lernen?
Wozu, möchte ich sagen. Dieses Reich geht unter. Und
Reibe du nur mit der Hand den Bauch und stöhne
Und man wird dich schon verstehen.

Mein junger Sohn fragt mich: Soll ich Geschichte lernen?
Wozu, möchte ich sagen. Lerne du deinen Kopf in die Erde stecken
Da wirst du vielleicht übrigbleiben.

Ja, lerne Mathematik, sage ich
Lerne Französisch, lerne Geschichte!



Lob des Lernens

Lerne das Einfachste! Für die
Deren Zeit gekommen ist
Ist es nie zu spät!
Lerne das Abc, es genügt nicht, aber
Lerne es! Laß es dich nicht verdrießen!
Fang an! Du mußt alles wissen!
Du mußt die Führung übernehmen.

Lerne, Mann im Asyl!
Lerne, Mann im Gefängnis!
Lerne, Frau in der Küche!
Lerne, Sechzigjährige!
Du mußt die Führung übernehmen.
Suche die Schule auf, Obdachloser!
Verschaffe dir Wissen, Frierender!
Hungriger, greif nach dem Buch: es ist eine Waffe.
Du mußt die Führung übernehmen.

Scheue dich nicht zu fragen, Genosse!
Laß dir nichts einreden
Sieh selber nach!
Was du nicht selber weißt
Weißt du nicht.
Prüfe die Rechnung
Du mußt sie bezahlen.
Lege den Finger auf jeden Posten
Frage: Wie kommt er hierher?
Du mußt die Führung übernehmen.

Ich habe gehört, ihr wollt nichts lernen

Ich habe gehört, ihr wollt nichts lernen
Daraus entnehme ich: ihr seid Millionäre.
Eure Zukunft ist gesichert - sie liegt
Vor euch im Licht. Eure Eltern
Haben dafür gesorgt, daß eure Füße
An keinen Stein stoßen. Da mußt du
Nichts lernen. So wie du bist
Kannst du bleiben.

Sollte es dann noch Schwierigkeiten geben,
Da doch die Zeiten
Wie ich gehört habe, unsicher sind
Hast du deine Führer, die dir genau sagen
Was du zu machen hast, damit es euch gut geht.
Sie haben nachgelesen bei denen
Welche die Wahrheiten wissen
Die für alle Zeiten Gültigkeit haben
Und die Rezepte, die immer helfen.

Wo so viele für dich sind
Brauchst du keinen Finger zu rühren.
Freilich, wenn es anders wäre
Müßtest du lernen.

Bertolt Brecht
Imagem: H. Matisse
La leçon de musique (1917)
La leçon de piano