"Convite para uma chávena de chá de jasmim"


segunda-feira, 5 de novembro de 2007

Povoamento

No teu amor por mim há uma rua que começa
Nem árvores nem casas existiam
antes que tu tivesses palavras
e todo eu fosse um coração para elas
Invento-te e o céu azula-se sobre esta
triste condição de ter de receber
dos choupos onde cantam
os impossíveis pássaros
a nova primavera
Tocam sinos e levantam voo
todos os cuidados
Ó meu amor nem minha mãe
tinha assim um regaço
como este dia tem
E eu chego e sento-me ao lado
da primavera





Ruy Belo
Aquele Grande Rio Eufrates


Imagem: Corde Sensible, R. Magritte

domingo, 4 de novembro de 2007

The Blind Men and the Elephant

It was six men of Indostan,
To learning much inclined,
Who went to see the Elephant
(Though all of them were blind),
That each by observation
Might satisfy his mind.

The First approach'd the Elephant,
And happening to fall
Against his broad and sturdy side,
At once began to bawl:
"God bless me! but the Elephant

Is very like a wall!"

The Second, feeling of the tusk,
Cried, -"Ho! what have we here
So very round and smooth and sharp?
To me 'tis mighty clear,
This wonder of an Elephant
Is very like a spear!"

The Third approach'd the animal,
And happening to take
The squirming trunk within his hands,
Thus boldly up and spake:
"I see," -quoth he- "the Elephant
Is very like a snake!"

The Fourth reached out an eager hand,
And felt about the knee:
"What most this wondrous beast is like
Is mighty plain," -quoth he,-

"'Tis clear enough the Elephant
Is very like a tree!"

The Fifth, who chanced to touch the ear,
Said- "E'en the blindest man
Can tell what this resembles most;
Deny the fact who can,
This marvel of an Elephant
Is very like a fan!"

The Sixth no sooner had begun
About the beast to grope,
Then, seizing on the swinging tail
That fell within his scope,
"I see," -quoth he,- "the Elephant
Is very like a rope!"

And so these men of Indostan
Disputed loud and long,
Each in his own opinion
Exceeding stiff and strong,
Though each was partly in the right,
And all were in the wrong!

MORAL,
So, oft in theologic wars*
The disputants, I ween,
Rail on in utter ignorance
Of what each other mean;
And prate about an Elephant
Not one of them has seen!

* amidst other disputes


John Godfrey Saxe's -1816-1887 - version of the famous Indian legend

Imagem: M.C. Escher

Edilidade, Invisualidade, Imbecilidade, Irresponsabilidade...e afins

Casa Manoel de Oliveira

Ideia: Homenagem a "filho da terra"
Meio: Construção de casa dupla
Intenção: Habitação do próprio e museu
Pormenor: Surpresa!!!
Decalque: Fundação Eugénio de Andrade
Local: Foz, pois claro!
Data do projecto: 1998


Arquitecto a contratar: de nomeada
Custo: xiiiiiiiiiiiiiii
Reacção antecipada: Agradecimento; comoção
Dividendos: Notoriedade; atenção e reconhecimento; alta-cultura!
Reacção do visado: Negativa - há quem não goste de surpesas
Reacção2 do visado : Já tenho casa; sou secular
Contra-proposta: Ora bem...que tal criar uma Fundação?

...A Câmara Municipal do Porto encomendou a obra ao arquitecto Souto Moura...

...O ex-presidente da autarquia, Nuno Cardoso, fez questão de assinalar o lançamento da primeira pedra...

... Manoel de Oliveira nunca garantiu a cedência do acervo...

... Em Julho ambos os espaços tinham sido vandalizados e assaltados...

... Na sequência de reportagem da SIC, a Câmara transferiu para o espaço um serviço da autarquia...

...O realizador de quase cem anos procura apoios para criar uma fundação...

... A última reunião com a autarquia foi há mais de dois anos...

... Rui Rio não aceitou gravar nenhuma entrevista com a SIC alegando que não quer dar “visibilidade a advogados que apenas querem protagonismo”...

... O problema arrasta-se há 10 anos...

... O presidente da Câmara decidiu agora instalar a Divisão de Património Cultural da Câmara naquele espaço destinado ao espólio do realizador...

...Temporariamente, dizem os responsáveis...

... A mudança está marcada para Novembro...

in Sic Online
17 /10 /2007

Borrões na pintura


«Ribeira Negra»


... originais expostos definitivamente no edifício da Alfândega do Porto ...


... local muito perto da zona que inspirou o mestre...

... Câmara do Porto manteve encaixotados os originais por mais de 20 anos ...

...O presidente da autarquia reconheceu que a Câmara do Porto podia ter encontrado há mais tempo um lugar de exposição permanente ...


...«Não era fácil porque era preciso uma parede muito grande, superior a quarenta metros», salientou Rui Rio ...


...O autarca só ficou a saber da existência dos originais há poucos meses, quando foram expostos, no Verão, na Bienal de Vila Nova de Cerveira ...


...O galerista Agostinho Cordeiro defendeu que a obra merecia um lugar mais apropriado, como o Museu de Serralves ...


...Opinião contestada por Carlos Brito, presidente da Associação para o Museu dos Transportes e Comunicações, gestora do edifício da Alfândega...


...Carlos Brito era vereador da Câmara do Porto quando Júlio Resende ofereceu os originais à autarquia...


...Carlos Brito considerou a Alfândega um local «espectacular» por ser palco de grandes eventos internacionais e receber anualmente a visita de milhares de crianças...


in Diário Digital / Lusa
31-10-2007 14:08:00

sábado, 3 de novembro de 2007

William Henry Fox Talbot



Pioneiro da fotografia, o seu contributo para o aperfeiçoamento do processo de revelação é decisivo. Síntese do homem do Renascimento com o do Iluminismo, os seus interesses e conhecimentos incluíam áreas tão abrangentes como a engenharia, agricultura, comércio, política, filosofia e religião a par de outras disciplinas: matemática, física, química. O estudo realizado sobre as propriedades da luz e as lentes trouxe-nos o "retrato fotogénico" - a fotografia. Enquanto filólogo destacou-se pelo estudo dos clássicos, pelo domínio de várias línguas latinas, além de hebraico e grego. Autor de "Legendary Tales" (1830) , nele reconhecemos ambientes próprios do Romantismo, fruto de uma visão poetizada e imaginativamente clara do mundo.
Viveu entre 1800 e 1877.

Imagens:
Botanical specimen Leaf of a Plant (1839)
Oak Tree in Winter (1842/43)
Breakfast Table (1840)



A single photograph
- portrait of the moment -
is an inexhaustible epic,
a living tale beyond words
superior to a hundred volumes
written and fixed.

A photograph is consciousness painting,
the instant's art that opens
on the unbounded vistas
of the inner life.


Daisaku Ikeda
From "Eternal Voyagers toward the Light of Peace,"
a poem dedicated to Robert and Cornell Capa
.


sexta-feira, 2 de novembro de 2007

Os Mortos


Os mortos sentam-se à mesa
mas sem tocar na comida;
ora fartos, já não comem
Senão côdeas de infinito.

Quedam-se esquivos, longínquos,
como a escutar o estribilho
do silêncio que desliza
sobre a medula do frio.

Não desvendo, embora lisas,
suas frontes, onde a brisa
tece uma tênue grinalda
de flores que não se explicam.

Nos beirais a lua afia
seu florete de marfim.
(Sob as plumas da neblina,
os mortos estão sorrindo:

um sorriso que, tão tíbio,
não deixa sequer vestígio
de seu traço quebradiço
na concha azul do vazio.)

Quem serão estes assíduos
morros que não se extinguem?
De onde vêm? Por que retinem
sob o pó de meu olvido?

Que se revelem, definam
os motivos de sua vinda.
Ou então que me decifrem
seu desígnio: pergaminho.

Sei de mortos que partiram
quase vivos, entre lírios;
outros sei que, sibilinos,
furtaram-se a despedidas.

Lembro alguns, talvez meninos,
que se foram por equívoco;
e outros mais, algo esquecidos
que de si mesmos se iam.

Mas estes, a que família
de mortos pertenceriam?
A que clã, se não os sinto
visíveis, tampouco extintos?

Ou quem sabe não seriam
mortos de morte, mas sim
de vida: imagens em ruínas
na memória adormecidas.

Mas eles, em seu ladino
concílio, disfarçam, fingem
não me ouvir. E seu enigma
(
névoa) no ar oscila e brinca.

Os Mortos, Ivan Junqueira
Imagem: Cao Fei

Outro Testamento
Quando eu morrer deitem-me nu à cova
Como uma libra ou uma raiz,
Dêem a minha roupa a uma mulher nova
Para o amante que a não quis.
Façam coisas bonitas por minha alma:
Espalhem moedas, rosas, figos.
Dando-me terra dura e calma,
Cortem as unhas aos meus amigos.
Quando eu morrer mandem embora os lírios:
Vou nu, não quero que me vejam
Assim puro e conciso entre círios vergados.
As rosas sim; estão acostumadas
A bem cair no que desejam:
Sejam as rosas toleradas.
Mas não me levem os cravos ásperos e quentes
Que minha Mulher me trouxe:
Ficam para o seu cabelo de viúva,
Ali, em vez da minha mão;
Ali, naquela cara doce...
Ficam para irritar a turba
E eu existir, para analfabetos, nessa correcta irritação.
Quando eu morrer e for chegando ao cemitério,
Acima da rampa,
Mandem um coveiro sério
Verificar, campa por campa
(Mas é batendo devagarinho
Só três pancadas em cada tampa,
E um só coveiro seguro chega),
Se os mortos têm licor de ausência
(Como nas pipas de uma adega
Se bate o tampo, a ver o vinho):
Se os mortos têm licor de ausência
Para bebermos de cova a cova,
Naturalmente, como quem prova
Da lavra da própria paciência.
Quando eu morrer. . .
Eu morro lá!
Faço-me morto aqui, nu nas minhas palavras,
Pois quando me comovo até o osso é sonoro.
Minha casa de sons com o morador na lua,
Esqueleto que deixo em linhas trabalhado:
Minha morte civil será uma cena de rua;
Palavras, terras onde moro,
Nunca vos deixarei.
Mas quando eu morrer, só por geometria,
Largando a vertical, ferida do ar,
Façam, à portuguesa, uma alegria para todos;
Distraiam as mulheres, que poderiam chorar;
Dêem vinho, beijos, flores, figos a rodos,
E levem-me - só horizonte - para o mar.

Quando eu morrer, Vitorino Nemésio




quinta-feira, 1 de novembro de 2007

Dia de Todos-os-Santos


Assinalando este dia sem recorrer a tradições importadas - eis o resultado de uma breve pesquisa:


A Igreja Católica celebra a Festum Omnium Sanctorum a 1 de Novembro seguida do Dia dos Fiéis Defuntos a 2 de Novembro. Esta tradição de recordar (fazer memória) os santos está na origem da composição do calendário litúrgico, em que constavam inicialmente as datas de aniversário da morte dos cristãos martirizados como testemunho pela sua fé, realizando-se nelas orações, missas e vigílias, habitualmente no mesmo local ou nas imediações de onde foram mortos, como acontecia em redor do Coliseu de Roma. Posteriormente tornou-se habitual erigirem-se igrejas e basílicas dedicadas em sua memória nesses mesmos locais.

Em Portugal, no dia de Todos-os-Santos as crianças saem à rua e juntam-se em pequenos grupos para pedir o Pão-por-Deus de porta em porta, recitando versos; recebem como oferenda pão, broas, bolos, romãs e frutos secos: nozes, amêndoas ou castanhas que colocam dentro de sacos de pano. É também costume, em certas regiões, os padrinhos oferecerem um bolo: o Santoro. Em algumas povoações chama-se a este dia o ‘Dia dos Bolinhos’.


Este meu Portugal desconhecido....

in Wikipédia