"Convite para uma chávena de chá de jasmim"


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quinta-feira, 20 de dezembro de 2007

Lugares



No lugar da árvore


No lugar da árvore. No lugar do ouvido.

No lugar do chão. Unidade crepitante

no silêncio aberto no Trânsito. Tronco, calma

bomba indeflagrável, dádiva da identidade.

António Ramos Rosa

quarta-feira, 12 de dezembro de 2007

Pão Doce :)


Aqui mereço-te
(...)

Abrem-se os novos lábios e eu mereço-te.
É este reino de insectos e de jogos,
das carícias que sabem a uma sede feliz.

Aqui entre o poço e o muro,
neste pequeno espaço de pedra cai um silêncio antigo:
uma infância inextinguível se alimenta
de uma fábula que renasce em todas as idades.

É aqui, minha filha, que dança a fada do ar
com seu brilho sedoso de erva fina
e a sua abelha silenciosa sobre a fronte.

É aqui o eterno recanto onde a água diz
a pura praia da infância.
Aqui bebe e bebe longamente
o hábito da tristeza no silêncio da vida,
aqui, ó pátria de água calada e de pão doce,
da fundura do tempo, da lonjura permanente,
aqui, bom dia, minha filha.


António Ramos Rosa

sábado, 8 de dezembro de 2007

Ceres e Seres



Cada árvore é um ser para ser em nós

Cada árvore é um ser para ser em nós

Para ver uma árvore não basta vê-la

a árvore é uma lenta reverência

uma presença reminiscente

uma habitação perdida

e encontrada



À sombra de uma árvore

o tempo já não é o tempo

mas a magia de um instante que começa sem fim

a árvore apazigua-nos com a sua atmosfera de folhas

e de sombras interiores

nós habitamos a árvore com a nossa respiração

com a da árvore

com a árvore nós partilhamos o mundo com os deuses



António Ramos Rosa


quinta-feira, 6 de dezembro de 2007

Uma Árvore e um Dia

A espessura da árvore
é branca

A casa repercute
os favos de silêncio

Ouço a medula da madeira
o pudor do silêncio jovem

O sangue circula sem bandeiras
ri na brancura
do corpo

Um rosto sob a cabeleira
rompe
no ardor do instante
em relâmpagos de ternura

Todas as hastes livres nascem
do quadrado aberto
sobre o rio

A palavra é um rosto que deixa ver o branco
do seu tremor

Do branco ao negro o branco
fogo
de uma árvore que estala em cada mão

O tronco antigo
é a casa nova
nos seus ramos vivos

Não uma escrita invulgar mas como as ervas
pobres. Como as pedras.

Tu poderás captar o esplendor
chamar-lhe-ás suave sob um sono de árvores.

Caminharás entre as plantas. Sentirás a sua sede.
E o olhar abrir-se-á no escuro fresco.

Ninguém te dirá que não te perdes na
densa água negra. Ou no branco papel.

Nunca apagarás o desejo.
Nem desistirás de procurar o lugar
ainda que lhe chames ausência.

Procura e não procures. Não existe um centro.
Mas a clareira por vezes
de súbito retém-nos.

António Ramos Rosa
A Espessura é Branca


Internacional, Interior