"Convite para uma chávena de chá de jasmim"


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quarta-feira, 28 de novembro de 2007

Com a força e dignidade de todas as legiões


Em Março deste ano, António Lobo Antunes, 65 anos, entrou no Hospital de Santa Maria com o manuscrito em que trabalhava debaixo do braço. E dali já não saiu. A notícia, brutal, de que tinha um cancro, chegaria pouco tempo depois. No mês seguinte, após ter sido operado, escreveu na VISÃO uma crónica na qual revelou o inferno que estava a viver. Agora, seis meses passados, o escritor lança O Meu Nome É Legião e, pela primeira vez, conta o que viu e o que sentiu.



Na minha ideia, O Meu Nome É Legião era por isso um livro de amor. De amor por uma geração, por uma classe social sozinha e abandonada, por um grupo de pessoas desesperadamente à procura de uma razão de existir.

É óbvio que dou muito mais importância aos livros do que às crónicas (...) estas são antes a possibilidade de poder fazer uma espécie de itinerário paralelo. Como quando, em miúdo, andava com o meu avô em estradas paralelas à via férrea, ficando com a sensação de viajar, ao mesmo tempo, no automóvel e no comboio.

Não sei se os leitores entenderão que o livro está a transbordar de amor. Custou-me muito que aquelas personagens morressem. Sempre me comoveu ver o desamparo em que as pessoas vivem. Acho que esta dimensão nunca foi suficientemente notada nos meus livros. Vivemos num certo desamparo, numa certa desprotecção.


Aprendi a admirar as pessoas do meu País. E a respeitá-las ainda mais. E a amá-las ainda mais. E a gostar cada vez mais delas. A partir daí, tudo o resto se tornou relativo. Houve coisas que deixaram de ser importantes. E normalmente é quando elas deixam de ser importantes que vêm ter connosco... O que me interessa, neste momento, é poder ter tempo para escrever, viver o suficiente para conseguir acabar o meu trabalho sem decepcionar os que acreditam em mim.

É claro que tomei consciência da minha finitude, porque todos vivemos em função de eternidades. Uma pessoa de 20 anos pensa que tem à sua frente 50 anos e, para ela, esses 50 anos não vão passar nunca. A minha mãe, por exemplo, vive em função de eternidades de seis meses. E, na prática, esses seis meses são tão compridos como os 50 anos do jovem de 20 anos. Quando a Maria Antonieta pedia ao carrasco «só mais um minuto, senhor carrasco», para ela aquele minuto era eterno.

Não gosto de pessoas amargas porque são mal agradecidas. A ingratidão é o pior sentimento que pode existir.

Há coisas que já não faço. Já não minto. Já não componho o perfil. Estou aqui diante de vós, nu e desfigurado. Porque a nudez desfigura sempre. Agora, jogo com as cartas abertas. Agora, jogo póquer com as cartas viradas para cima. Agora, já não há nada escondido, está tudo à vista. E ou a mão ganha ou perde. Nos livros, também já não há truques. São livros que não devem nada a ninguém. Não se nota ali a voz de ninguém, não há ali influência de qualquer outro autor. Nada. Zero. É a minha voz inteira. E a conquista da minha própria voz foi talvez o mais importante que me aconteceu. Não há ninguém a atravessar-se no meu caminho. Se não nos medimos com os melhores, não vale a pena medirmo-nos.


Não é ver a morte à minha frente, é vê-la dentro de mim. Já está cá, é uma parte de nós. E é mais fácil do que se pensa, não requer coragem, apenas dignidade e elegância. Perguntava muitas vezes: tenho-me portado de uma maneira digna?


Não há nada de mais horrível do que a cobardia. Compreendi a frase de Hemingway, quando quiseram saber o que é que ele achava da morte e a resposta dele foi: «Outra puta.» Porque a morte é sempre uma puta e, a uma puta, não se pode dar confiança. Uma amiga, que é minha médica, disse-me: «Tens que aprender a viver com isto.» Não, não tenho. Não tenho que viver com um filho da puta. Eu não vivo com um cabrão, quero destruí-lo, não quero viver com ele.

Quando ia às sessões de radioterapia, encontrava pessoas de todas as idades. Lembro-me sobretudo de uma rapariga de 20 anos que usava uma cabeleira postiça. Percebia-se logo que a cabeleira era postiça, mas ela usava-a com tanta dignidade que era como se fosse uma coroa. Uma coroa de rainha. E era, de facto, uma rainha que ali estava.

O mundo nunca cai em cima de ninguém. Naquele momento, só pensei nos livros. O que vai acontecer aos livros? Levei o que andava a escrever para o hospital, mas não tinha forças para trabalhar. Queria fazê-lo, mas não conseguia. E não queria deixar o livro inacabado porque, no meu caso, um livro inacabado é um livro cheio de redundâncias, de inutilidades e toda aquela ganga que se escreve.


Como sentiu a reacção dos leitores à sua Crónica do Hospital?
Não sabia que havia tanta gente que gostava de mim.

Sentiu-se menos desamparado?
Não, senti que não merecia tanto afecto.

Antes pedia para ver se a morte era boa consigo...
Sim, para ver se ela tinha pena de mim. Agora, já não preciso de pena.





Sara Belo Luís in Visão

segunda-feira, 26 de novembro de 2007

Ionesco: 26.11.1909

Nous sommes prisonniers à la fois de nos cultures et de nos organismes, et il faudrait chercher, s'il y en a, des vérités plus profondes, des au-delà de cela.

28.03.1994

Ionesco: ...Ich reise ab. Ich reise gerne ab.

Wickert: Gibt es einen psychologischen Grund, warum sie so gerne abreisen, einfach weggehen?

Ionesco: Ja, das ist eine psychologische Frage. Ich habe einfach Lust, anderswo hinzugehen, zu fliehen. Wenn ich zu Hause bleibe, habe ich den Eindruck, daß mir größere Gefahren drohen, als wenn ich herumreise. Ich liebe das Abreisen. Ein französischer Dichter hat gesagt, Abschied nehmen heißt ein wenig sterben. Ich sehe das umgekehrt: Weggehen heißt ein wenig leben. Also reise ich ab.


Wickert: Ist es Ihnen eigentlich egal, wohin sie reisen. Ist nur wichtig, daß sie reisen?

Ionesco: Einfach abreisen, neue Orte kennenlernen. Es macht mir Freude, Menschen zu begegnen. Ich unternehme viel, sehe mir Ausstellungen an, schreibe auch in einem Hotel in St. Gallen, lerne Menschen, lerne neues kennen. Ich habe das Gefühl, wenn ich auf Reisen bin, daß die Welt neu wird, ganz frisch, jungfräulich. Immer bin ich auf der Suche nach der neuen Welt.. Ärgerlich ist nur, daß man nichts neues mehr entdeckt.
Ich war einmal in Israel, da fragte mich der Landwirtschaftsminister, der gegen die Wüste ankämpfte, um etwas Land zu gewinnen: 'Was hat Ihnen hier in Israel am meisten gefallen?' Ich habe dem Minister ganz dumm geantwortet: 'Die Wüste.' In den Großstädten findet man die Wüste, aber eine lärmende Wüste. Ich suche eine wirkliche Wüste, die Einsamkeit.


Wickert: Warum suchen sie die Einsamkeit?
Ionesco: In der Einsamkeit finde ich den Menschen. In den Massen kann ich ihn nicht mehr finden. Es gibt Einzelgänger, die wirklich isoliert sind, und es gibt Pseudo-Einsame.


Wickert: Wo stehen sie? Welche Art von Einzelgänger sind Sie?
Ionesco: Ich versuche, ein wirklicher Einzelgänger zu sein, aber zwangsläufig bin ich es nicht. Ich stehe in Kontakt mit allen möglichen Welten, den Zeitungen und den Massenmedien. Denn, wie gesagt, das Ich ist letztlich nicht von den anderen getrennt. Es begegnet den anderen in sich selbst.



Wickert: Sind sie Pessimist?
Ionesco: Ich kann nicht behaupten, daß ich pessimistisch wäre. Ich sage nur, daß ich erstaunt und erstaunt, entsetzt und entsetzt bin. Und ich frage mich, wie lange das alles noch dauern wird. Das ist die Hölle. Die Hölle ist die Dauer. Die Hölle ist die Wiederholung. Die Hölle dauert lange, die Ewigkeit hingegen nur einen Augenblick. Die Ewigkeit ist außerhalb der Zeit.



Wickert: Da sind sie fröhlich. Sie zeigen zwar die Zerstörung der Kommunikation, der Sprache, aber sie tun es mit Spaß.
Ionesco: Ja, leichtsinnig, unbekümmert, als wäre es ganz normal. Damals war ich auch noch jung.
Wickert: Waren sie fröhlich?
Ionesco: Nein, fröhlich bin ich nie gewesen. Das Schreiben macht mich glücklich.