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"Convite para uma chávena de chá de jasmim"
A vida não é como os livros, dizem. A vida não é os livros. Porém os livros são acerca de vidas; são o produto de vidas; influenciam vidas. Humm..quanto mais penso no tema, mais semelhanças encontro entre ambos:a limitação do seu tempo físico de vida ainda que perdurem na memória; a sua necessidade de "novos formatos" a fim de não se perder irreversivelmente (nem sempre se consegue); a "escolha" condicionada - umas vezes é escolhida; a carestia (importa SOBREviver e não SUbsistir); o espaço que se partilha umas vezes, ou que pretendemos manter secreto de tão precioso ou ímpar; o seu título (o nome próprios, os comuns, o epitáfio); a capa e a contracapa (solar e lunar das decisões)...
Recentemente - e considerando o aspecto relativo do tempo - socorri-me do dicionário- MA(E)nancial que nunca enjeito - e rumei até à letra H...sim...procurava a definição de "homem". Pondo de parte perspectivas, acepções, contextos. Singela e objectivamente: "homem". Talvez assim pudesse aproximar o conceito da vida por intermédio do livro. Este como mediador: o dicionário como guia das estradas não que me sentisse perdida mas para nele tentar encontrar uma sinaléctica que indicasse uma actualização, auto-estradas, vias alternativas que tivessem soterrado a estrada de terra, íngreme porém pitoresca.
Atalhando a definição inicial de ser humano racional , mortal, topo da pirâmide evolutiva e sem considerações linguísticas feministas que me induzissem a discorrer sobre "a espécie humana" lá encontrei "ser humano do sexo masculino, na idade adulta; ser dotado de qualidades viris como coragem, força, vigor sexual, etc; marido ou amante; homem que apresenta os requisitos necessários para um empreendimento" (funcionalista!)
in Aurélio século XXI, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira
Como a era é tecnológica, os dedos rumaram à Wikipedia
"Homem é um ser humano do sexo masculino bípede da família dos primatas, pertencente à subespécie Homo sapiens sapiens.O termo menino é usual para uma criança humana do sexo masculino e o termo rapaz atribuído a um macho humano adolescente ou jovem adulto. O termo homem pode ser utilizado ainda para se referir ao ser humano de maneira geral, seja ele homem ou mulher. (...)
A condição de homem é normalmente vinculada ao período da vida após a juventude, pelo menos numa acepção física, durante o puberdade. Um menino é uma criança humana masculina. Para muitos, a palavra homem implica um determinado grau de maturidade e responsabilidade para as quais homens jovens, em especial não se sentem prontos; contudo, também podem sentir-se demasiado velhos para serem chamados de menino, por esta razão, muitos evitam usar o termo homem ou o menino para descrever um homem jovem e preferem termos mais coloquiais tais como rapaz e gajo."
Bem me parecia que, apesar dos viadutos, vias rápidas anunciadas em planos megalómanos auto-promocionais por entre muita pompa e ainda mais circunstância...a estrada de terra...continuava lá.
Corrompendo a citação: Não deixeis vir a mim as criancinhas!
Ciprés.
(Agua estancada.)
Chopo
(Agua cristalina.)
Mimbre.
(Agua profunda.)
Corazón.
(Agua de pupila.)
Federico García Lorca, Ciprés
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Vivem pros seu maridos, orgulho e raça de Atenas
Quando amadas, se perfumam
Se banham com leite, se arrumam
Suas melenas
Quando fustigadas não choram
Se ajoelham, pedem, imploram
Mais duras penas
Cadenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Sofrem pros seus maridos, poder e força de Atenas
Quando eles embarcam, soldados
Elas tecem longos bordados
Mil quarentenas
E quando eles voltam sedentos
Querem arrancar violentos
Carícias plenas
Obscenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Despem-se pros maridos, bravos guerreiros de Atenas
Quando eles se entopem de vinho
Costumam buscar o carinho
De outras falenas
Mas no fim da noite, aos pedaços
Quase sempre voltam pros braços
De suas pequenas
Helenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Geram pros seus maridos os novos filhos de Atenas
Elas não têm gosto ou vontade
Nem defeito nem qualidade
Têm medo apenas
Não têm sonhos, só têm presságios
O seu homem, mares, naufrágios
Lindas sirenas
Morenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Temem por seus maridos, heróis e amantes de Atenas
As jovens viúvas marcadas
E as gestantes abandonadas
Não fazem cenas
Vestem-se de negro, se encolhem
Se conformam e se recolhem
Às suas novenas
Serenas
Mirem-se no exemplo daquelas mulheres de Atenas
Secam por seus maridos, orgulho e raça de Atenas
Chico Buarque - Augusto Boal, 1976
Imagem: Diego Rivera - The flower seller
Gosto das mulheres que envelhecem,
com a pressa das suas rugas, os cabelos
caídos pelos ombros negros do vestido,
o olhar que se perde na tristeza
dos reposteiros. Essas mulheres sentam-se
nos cantos das salas, olham para fora,
para o átrio que não vejo, de onde estou,
embora adivinhe aí a presença de
outras mulheres, sentadas em bancos
de madeira, folheando revistas
baratas. As mulheres que envelhecem
sentem que as olho, que admiro os seus gestos
lentos, que amo o trabalho subterrâneo
do tempo nos seus seios. Por isso esperam
que o dia corra nesta sala sem luz,
evitam sair para a rua, e dizem baixo,
por vezes, essa elegia que só os seus lábios
podem cantar.
Nuno Júdice, Mulheres que envelhecem

"There are More Things" - (Excerto)
À memória de Howard P. Lovecraft
Naquela noite não dormi. Pela madrugada sonhei com uma gravura à maneira de Piranesi, que nunca tinha visto ou que tinha visto e esquecido, e que representava o labirinto. Era um anfiteatro de pedra, cercado de ciprestes e mais alto que as copas dos ciprestes. Em vez de portas e janelas, havia uma fileira infinita de frestas verticais e estreitas. Com uma lupa, eu procurava ver o minotauro. Por fim avistei-o. Era o monstro de um monstro; tinha menos de touro que de bisonte e, estendido por terra o corpo humano, parecia dormir e sonhar. Sonhar com quê ou com quem?
in O Livro de Areia ,1975, Jorge Luis Borges
O Labirinto
É este o labirinto de Creta. É este o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro. É este o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações. É este o labirinto de Creta cujo centro foi o minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações, como María Kodama e eu nos perdemos. É este o labirinto de Creta cujo centro foi o Minotauro que Dante imaginou como um touro com cabeça de homem e em cuja rede de pedra se perderam tantas gerações, como María Kodama e eu nos perdemos naquela manhã e continuamos perdidos no tempo , esse outro labirinto.
in Atlas,1984
Jorge Luis Borges
“O homem caminha durante dias pelo meio das árvores e pedras. Raramente o olho se detém sobre alguma coisa, e só quando a reconhece pelo sinal de outra coisa: uma pegada na areia indica a passagem do tigre; um pântano anuncia um veio de água; a flor do hibisco o fim do Inverno. Tudo o resto é mudo e inter cambiável; árvores e pedras são só o que são.
Finalmente a viagem conduz à cidade de Tamara. Entra-se nela por ruas pejadas de letreiros que sobressaem das paredes. Os olhos não vêem coisas mas sim figuras de coisas que significam outras coisas: a tenaz indica a casa do arranca-dentes; a garrafa a taverna; a alabarda o corpo da guarda; a balança romana a ervanária. Estátuas e escudos representam leões, golfinhos torres estrelas: sinal de que qualquer coisa – sabe-se lá o quê – tem por símbolo um leão, ou golfinho ou torre ou estrela.
Outros sinais avisam de que num local é proibido – entrara no beco com as carroças, urinar atrás do quiosque, pescar com cana do alto da ponte – e do que é lícito – dar de beber às zebras, jogar à bola, queimar os cadáveres dos parentes. (…) Se um edifício não tiver nenhum letreiro ou figura, a sua própria forma e o lugar que ocupa na ordem da cidade bastam para indicar a sua função: o palácio real, a prisão, a fundição da moeda, a escola de aritmética, o bordel.
Até as mercadorias que os vendedores põem em exposição nas bancas valem não por si próprias mas como sinais de outras coisas: a fita bordada para a fronte quer dizer elegância; a liteira dourada poder; os volumes de Averróis sapiência; a pulseira para o tornozelo volúpia. O olhar percorre as ruas como páginas escritas: a cidade diz tudo o que devemos pensar, faz-nos repetir o seu discurso, e enquanto julgamos visitar Tamara limitamo-nos a registar os nomes com que ela se define a si mesma e todas as suas partes.
Como realmente é a cidade sob este denso invólucro de sinais, o que ela contém ou oculta, o homem sai de Tamara sem tê-lo sabido. Fora dela espraia-se a terra vazia até ao horizonte, abre-se o céu por onde correm as nuvens. Na forma que o acaso e o vento dão às nuvens o homem fica logo absorvido a reconhecer figuras: um veleiro, uma mão, um elefante…”
in As Cidades Invisíveis, Italo Calvino, Teorema pp 17-18
Imagem. R. Magritte
Rio de Janeiro, 7 de Setembro de 1922 — São Paulo, 12 de Outubro de 2007
"Minha paixão é o teatro,exclusivamente. Minha programação para televisão é não fazer(...)Vejo uma mediocridade de televisão o tempo todo, enjoei.
Entrei numa loja em São Paulo, tinha uma senhora, até bem vestida, que veio tentar falar comigo (...)perguntei a ela se ela não ia ao teatro e ela disse, "Vou sempre, chego em casa, a primeira coisa que faço é ligar a televisão. Para teatro era a televisão. E não era uma mendiga de rua.
(...)Qual é a profissão estável? Qual a situação estável? Uma das coisas mais interessantes na vida é que estabilidade não existe. Você casa, pensa que agora realizou sua vida, e infelizmente o casamento acaba. Vai ser funcionário publico, muda o governo, e você é despedido. Qualquer profissão é instável. A vida é instável.
Todo mundo diz que eu soube construir muito bem a minha carreira. Um pensamento que nunca passou pela cabeça.(...)Fui sempre escolhendo pelo o que eu lia, gostava, o que achava necessário ser falado naquele momento. Cada momento é um critério diferente que a gente tem."
in Globo Online
Thiago Augusto- Entrevista originalmente publicada na Revista Centelha,
Imagem:paginas.terra.com.br