"Convite para uma chávena de chá de jasmim"


segunda-feira, 12 de novembro de 2007

Demandas

Uma certa quantidade de gente à procura
de gente à procura duma certa quantidade

Soma:
uma paisagem extremamente à procura
o problema da luz (adrede ligado ao problema da vergonha)
e o problema do quarto-atelier-avião

Entretanto
e justamente quando
já não eram precisos
apareceram os poetas à procura
e a querer multiplicar tudo por dez
má raça que eles têm
ou muito inteligentes ou muito estúpidos
pois uma e outra coisa eles são
Jesus Aristóteles Platão
abrem o mapa:
dói aqui
dói acolá

E resulta que também estes andavam à procura
duma certa quantidade de gente
que saía à procura mas por outras bandas
bandas que por seu turno também procuravam imenso
um jeito certo de andar à procura deles
visto todos buscarem quem andasse
incautamente por ali a procurar

Que susto se de repente alguém a sério encontrasse
que certo se esse alguém fosse um adolescente
como se é uma nuvem um atelier um astro


Mário Cesariny

Imagem: J. Miró
The Escape Ladder (1939/40)

domingo, 11 de novembro de 2007

Ab Antiquo

Preâmbulo às instruções para dar corda ao relógio

Pensa nisto: quando te oferecem um relógio, oferecem-te um pequeno inferno florido, uma prisão de rosas, um calabouço de ar. Não te dão somente o relógio, muitos parabéns, que te dure muitos e bons, é uma óptima marca, suíço com não sei quantos rubis, não te oferecem somente esse pequeno pedreiro que prenderás ao pulso e passeará contigo. Oferecem-te -- ignoram-no, é terrível ignorá-lo -- um novo bocado frágil e precário de ti mesmo, algo que é teu mas não é o teu corpo, que tens de prender ao teu corpo com uma correia, como um bracito desesperado pendente do pulso. Oferecem-te a necessidade de lhe dar corda todos os dias, a obrigação de dar corda para que continue a ser um relógio; oferecem-te a obsessão de ver as horas certas nas montras das joalharias, o sinal horário na rádio, o serviço telefónico. Oferecem-te o medo de o perder, de seres roubado, de que caia ao chão e se parta. Oferecem-te uma marca, a convicção de que é uma marca superior às outras, oferecem-te a tentação de comparares o teu com os outros relógios. Não te oferecem um relógio, és tu o oferecido, a ti oferecem para o nascimento do relógio.

Instruções para dar corda ao relógio

Lá bem no fundo está a morte, mas não tenha medo. Segure o relógio com uma mão, com dois dedos na roda da corda, suavemente faça-a rodar. Um outro tempo começa, perdem as árvores as folhas, os barcos voam, como um leque enche-se o tempo de si mesmo, dele brotam o ar, a brisa da terra, a sombra de uma mulher, o perfume do pão.

Quer mais alguma coisa? Aperte-o ao pulso, deixe-o correr em liberdade, imite-o sôfrego. O medo enferruja as rodas, tudo o que se poderia alcançar e foi esquecido vai corroer as velas do relógio, gangrenando o frio sangue dos seus pequenos rubis. E lá bem no fundo está a morte, se não corrermos e chegarmos antes para compreender que já não interessa nada.

Julio Cortázar
Imagens: René Magritte
La Voie Royale
Le temps traversé

sábado, 10 de novembro de 2007

Tamara de Lempicka

Varsóvia, 16 de Maio de 1898
Cuernavaca, 18 de Março de 1980
1 23
45 6
78
1- Arlette Boucard aux Arums
2 - Jeune Fille Vert 3 - Adam et Eve
4- La Dormeuse
5- La Convalescente
6- Maternité
7- La Tunique Rose
8- Portrait d' Ira

sexta-feira, 9 de novembro de 2007

Inequívocos Equívocos


Pouco saberei contar-te de Aglaura para além das coisas que os próprios habitantes da cidade repetem desde sempre: uma série de virtudes proverbiais, algum malicioso obséquio às regras.

Antigos observadores, que não há razão para não supor verdadeiros, atribuíram a Aglaura a sua duradoura provisão de qualidades, certamente comparando-as com as de outras cidades do seu tempo.

Nem a Aglaura que se diz nem a Aglaura que se vê devem ter mudado muito desde então, mas o que era excêntrico tornou-se habitual, estranheza o que se passava por norma, e as virtudes ou defeitos perderam excelência ou desonra num concerto de virtudes ou defeitos diferentemente distribuídos. Neste sentido nada do que se diz de Aglaura é verdade, embora dela se extraia uma imagem sólida e compacta da cidade, enquanto menor consistência alcançam os esparsos juízos que se possam extrair vivendo lá. E o resultado é este: a cidade que dizem tem muito do que é preciso para existir, enquanto acaba por existir menos a cidade que existe no seu lugar.

Portanto se quisesse descrever-te Aglaura atendo-me apenas ao que vi e experimentei em pessoa, deveria dizer-te que é uma cidade desbotada, sem carácter, posta ali ao deus-dará, indiferente. Mas nem mesmo isto seria verdade: a certas horas, em certos trechos de ruas, vemos abrir-se-nos à frente a suspeita de qualquer coisa inconfundível, rara, talvez até magnífica; queria contar-te o que é, mas tudo o que se tem dito de Aglaura até agora aprisiona as palavras e obriga-nos a redizer em vez de dizer.

Por isso os habitantes julgam sempre que habitam uma Aglaura que só cresce no nome de Aglaura e não se apercebem da Aglaura que cresce em terra. E até mesmo a mim, que desejaria manter distintas na memória as duas cidades, não me resta senão falar de uma, porque se perdeu a recordação da outra, por falta de palavras para a fixar.

in As Cidades Invisíveis, Italo Calvino

quinta-feira, 8 de novembro de 2007

Prof. Óscar Lopes: Dedicação, Delicadeza e Doçura

O livro As Mãos e o Espírito foi impresso em 1958. Vivíamos sob a opressão interna e o céu de chumbo do chamado equilíbrio nuclear. Em 1957 Óscar Lopes integrara como partidário da paz os cinquenta e dois réus do chamado processo MUD Juvenil, julgado pelo Tribunal Plenário do Porto. O julgamento arrastou-se durante meio ano, por vezes com três sessões diárias, de manhã, à tarde e à noite. No entanto, no texto que ireis ler, não há amargura ou desalento, mas a serenidade de uma consciência aberta para a entrega ao mundo. Para os noventa anos do Óscar Lopes - 2 de Outubro - deveria ouvir-se música, ainda que ele não a ouça, uma cantata de Bach ou de Prokofiev, uma sonata ou um quarteto de Beethoven, um lied, um trio de Schubert ou simplesmente uma qualquer peça de Mozart. Fico-me por uma braçada de palavras que não se atrevem a descrever a grandeza desta figura singular.

António Borges Coelho
Óscar Lopes, As mãos e o espírito

Para mim Mahler é o seu leitmotiv
...de mãos vazias ...

VIII

Na idade em que a maioria dos homens vai para cima
das árvores
levando somente a carga instantânea
há aqui palavras que se engolem como espadas
motores planejados para sofrer os maiores abusos sem
queixas

poéticas viagens com Júpiter
um homem que nunca falhou
embora não seja orador

Mário Cesariny, Pena Capital

quarta-feira, 7 de novembro de 2007

A Forma das Palavras: Salette Tavares


1


2 3


4 5

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7 8

9

10

Imagens:

1- OuroBesouro (1963)
2- Kinetofonias (1964)
3- Os Efes (1964)

4- Aranha (1964)

5- Arranhão (1968)

6-Cigarro

7- Tapeçaria do Menino Ivo (1978)

8- Maquinin (1963)

9- Bailia de Ayras Nunes de Santiago (1979)

10- Alquerubim (1979)

terça-feira, 6 de novembro de 2007

Pintar e Escrever a Vida

Não pinto quadros; pinto a Vida - Vincent Van Gogh

Café Noturno

Alucinação de mesas
que se comportam como fantasmas
reunidos
solitários
glaciais



Jardim do Asilo de Loucos em Saint-Rémy

O jardim onde passeia a ausência de razão
é todo ele ordem natural.
a terra acolhe o desvario
que assimila a verdura e a leveza do ar.

A Cadeira
Ninguém está sentado
mas adivinha-se o homem angustiado.


As Botas
Cansaram-se de caminhar
ou o caminho se cansou?

Poemas de Carlos Drummond de Andrade a propósito de quadros de Van Gogh
Imagens:
Praça do Fórum em Arles (1888)
Jardim da casa de saúde em Arles (1889)
A cadeira (1888)
Par de Botas com cordões (1888)