"Convite para uma chávena de chá de jasmim"


domingo, 14 de outubro de 2007

"The Kingdom"


Aproveitando o tempo livre compulsivo - há algo de paradoxal nesta frase - fui ao cinema em "horário de expediente". O filme que me escolheu foi "O Reino" e, pelo menos durante as primeiras imagens, senti-me uma privilegiada. Dei por mim a pensar que aquela síntese retrospectiva poderia ter sido usada num documentário filmado por Michael Mann. Mais tarde, li que havia sido produzido por ele.

Muitos aprenderão mais sobre a emergência dos estados árabes e a luta pelo controlo do petróleo naqueles breves dez (?) minutos do que a ler volumosos compêndios de história. A intriga? A mensagem do filme? Inicialmente parecia-me mais um panegírico do FBI, um louvor às agências de investigação americanas e à sua industriosa acção reparadora..quer lha tenham solicitado, quer não. Passível de interpretações diversas..de denunciador a laudatório para os "justiceiros" ou "cavaleiros do apocalipse" nas limitações impostas à equipa e na mensagem que já nos parece trivial e piegas mas que esquecemos quando apelam ao fervor nacionalista contra o inimigo. A consideração que, do outro lado da barricada, há seres ... humanos... como nós!

* * * Jamie Foxx :)

sábado, 13 de outubro de 2007

Com Palavras



Com palavras me ergo em cada dia!
Com palavras lavo, nas manhãs, o rosto
e saio para a rua.
Com palavras - inaudíveis - grito
para rasgar os risos que nos cercam.

Ah!, de palavras estamos todos cheios.
Possuímos arquivos, sabemo-las de cor
em quatro ou cinco línguas.
Tomamo-las à noite em comprimidos
para dormir o cansaço.

As palavras embrulham-se na língua.
As mais puras transformam-se, violáceas,
roxas de silêncio. De que servem
asfixiadas em saliva, prisioneiras?

Possuímos, das palavras, as mais belas;
as que seivam o amor, a liberdade...
Engulo-as perguntando-me se um dia
as poderei navegar; se alguma vez
dilatarei o pulmão que as encerra.

Atravessa-nos um rio de palavras:
Com elas eu me deito, me levanto,
e faltam-me palavras para contar...

Com Palavras, Egito Gonçalves
Imagem: The Art of Conversation (1950) Magritte, René

Discursos de contrapoder ou de "ai que saudades do poder"



..E ainda não tinha eu lido a notícia que reproduzia o discurso do filho...sem dúvida que a analogia bélica...fica "a matar" num "solo sagrado" ao qual os peregrinos se deslocam com um espírito de sacrifício, esforço e despojamento.
Uma aposta que a Bíblia do filho é "O Príncipe" - já citado no post anterior ou o "Mein Kampf"? Influências paternas!!

12.29 Lusa in Publico.pt"O cardeal Tarcisio Bertone, Secretário de Estado do Vaticano, apelou hoje à rebelião dos cristãos face aos pretensos senhores destes tempos -acham-se no mundo da cultura e da arte, da economia e da política, da ciência e da informação- que exigem e estão prontos a comprar, se não mesmo a impor, o silêncio dos cristãos invocando imperativos de uma sociedade aberta' (esqueceu-se de algum domínio da vida social? ah! as forças armadas..mas redimiu-se já a seguir!) E também, perante os que, "em nome de uma sociedade tolerante e respeitosa, impõem como único valor comum a negação de todo e qualquer valor real e permanentemente válido". (este homem percebe alguma coisa de filosofia/sociologia/antropologia? os valores são idealidades, abstractos e mutáveis! Os dogmas são imutáveis..alguém o inscreva num Centro de Novas Oportunidades, vulgo CNO!!)

"Face a tais pretensões, o mínimo que podemos fazer é rebelar-nos(pergunto-me qual seria, em seu entender o máximo..inverter a situação romanos/cristãos..é do local..Roma..e tal ..andou a rever o Gladiador) com a mesma audácia dos apóstolos perante idêntica pretensão dos senhores daquele tempo - (diferentes tempos, diferentes métodos, distintas práticas de audácia, não? "mudam-se os tempos..." este definitivamente nunca leu Camões)

'Não podemos calar o que vimos e ouvimos".(não sei por que razão mantiveram o suposto segredo e a Lúcia de boca fechada e olhos escondidos em óculos de fundos de garrafa! ..além de que os sentidos são enganadores..ele ainda vai pela tese empirista..ts ts ts)

'A vitória depende essencialmente do talento, da habilidade, do valor dos que escrevem nos jornais, dos que falam nas reuniões, dos que têm um papel mais visível e seria suficiente animar e aplaudir estes chefes como se anima e aplaude os jogadores no estádio' ..ou como se faz o beija-mão..ou como se outorga o chefe máximo de uma hierarquia autocrática..não me lembro de ter votado em candidadtos a Papa ..de Santo Padre!!)

"Não existe erro mais temível e desastroso!", disse o "número dois" do Vaticano, acrescentando que "se os soldados algum dia chegassem a pensar que a vitória já não dependia deles, mas somente do Estado-Maior, esse exército marcharia de desastre em desastre". Assim, é fundamental, " para evitar tal desastre no que se refere ao renascimento do homem para uma sociedade nova, o esforço até o mais insignificante, dos servos mais humildes, dos servos de um só talento". (Lá se vai a ideia de que somos todos iguais aos olhos do Pai..afinal há uns humildes, mono-talentosos ou afortunados e há esforços insignificantes..jogar póquer com este tipo deve ser giro!! ele aposta até a tia!!)

"Fátima é conversão, emenda de vida, deixar de pecar, reparar a Deus ofendido no irmão". (ora bem..o Filho sentiu-se abandonado pelo Pai..agora temos o irmão ..ou a irmã Rússia..que até já tolera a religião e já permite a prática religiosa, quer católica, quer ortodoxa..o que este não quer é a diversidade! Vamos converter ou seja..não impor um areligião ..mas "converter"..derramar sobre os "bárbaros, infiéis e impuros" a nossa suposta e altiva cristandade e pureza!! Medieval!!)

E dirigindo-se aos fiéis,( aquelas farpas eram para os ímpios) lembrou que, "sem negar o valor dos sacrifícios e penitências voluntárias", (boa!! ou seja..Filipinas e rituais de expiação, purificação, penitência, apedrejamento, crucificação..só ficam bem e este subscreve!!) a penitência de Fátima é a aceitação submissa da vontade de Deus"

(méééééééééééééé...esta vontade é-nos veiculada e "explicada" por estes altos dignitários..com base em depoimentos de crianças esfaimadas que ouviram, em português, um discurso de horas sobre a Rússia e sua necessidade de conversão ..senão males terríveis adviriam à Humanidade. Uma informação desta importância é "selada" após comprovação,pela Igreja, da autenticidade e autoridade desta mensagem. A mensagem e circunstâncias não são susceptíveis de discussão, crítica ou contra-argumentação; é uma mensagem clara e unívoca.
Este Bretone devia estar na presidência das Nações Unidas..ou no ponto mais alto da torre de Babel..ainda que a Divindade a quisesse destruir e confundir a humanidade ..tinha esta "personagem" como tradutor..a desfazer o que Deus fez! Este homem é o Senhor!!)

Este discurso é dos mais insidiosos, xenófobos, fundamentalistas e arrogantes dos últimos tempos.. e quem não se sentir envergonhado..não é filho do Criador. Se não tivesse devolvido o cartão de membro, costuraria uma burka ..e amanhã apresentar-me-ia na missa do meio-dia!!

Diferenças / semelhanças com as imagens?

Estado laico..ou talvez não


Uma nova Igreja foi inaugurada ontem em Fátima baptizada "Santíssima Trindade".Se da hierarquia eclesiástica não estive presente a figura do Pai enviando, em seu lugar, um filho imbuído de um espírito "santo", já o poder temporal teve o pai "in loco", o filho anfitrião em Belém e o espírito mediático a reportar e difundir todo o evento.
Se as ligações divino / temporal me incomodam, assistir a reportagens acerca da coerência ou coincidência da mensagem Mariana com a revolução russa, deixa-me num arrebol!Tivesse o "segredo" sido desvendado "a priori" e o curso dos acontecimentos históricos,na já então União Soviética, teria sido diverso? A ideologia marxista-leninista ter-se-ia mostrado tolerante para com princípios, cultos e ícones religiosos? Teria havido lugar a um estado plural e democrático? Os Mencheviques continuariam no poder e o ideário da revolução de Fevereiro triunfaria aproximando o Oriente do Ocidente em termos ideológicos e políticos? E Por que optaria a Madonna por uma condenação tão veemente a um dos blocos ideológicos? E ..por que não usar Ela do seu poder e libertar os seus filhos oprimidos? Porquê este delegar de competências? Porquê o Seu silêncio ou ausência de protagonismo / evidência actuais? Insondáveis os desígnios metafísicos!

"Só falta falar agora dos principados eclesiásticos(..); obtêm-se por virtù ou por sorte e conservam-se sem uma coisa nem outra, porque se mantêm graças à grande antiguidade das instituições religiosas, que são tão fortes e de tal natureza que os seus príncipes conservam os seus lugares, seja qual for o modo como se comportam e vivam. Têm territórios e não os defendem, têm súbditos e não os governam.E, embora os seus estados não sejam defendidos, ninguém se apodera deles;e, embora os seus súbditos não sejam governados, não se importam com isso: não pensam nem podem subtrair-se ao seu próprio governo. Portanto, só estes principados são seguros e felizes. (..)
Contudo, se alguém me perguntasse, com insistência, como se explica que a Igreja se tenha tornado tão grande e tão poderosa no campo temporal (..) e embora a explicação me pareça evidente, não me escusaria a responder.
Antes do rei Carlos entrar em Itália, o país estava sob o domínio do papa, dos Venezianos, do rei de Nápoles, do duque de Milão e dos Florentinos. Estes potentados deviam evitar, principalmente, duas coisas: que algum estrangeiro entrasse em Itália para aí fazer guerra e que algum deles ocupasse mais território do que tinha. Aqueles que causavam mais apreensão eram o papa e os Venezianos. Para sofrear o papa, serviam-se dos barões de Roma - Orsínis e Colonas - empunhando as armas na sua presença e tornando o papado mais fraco e menos poderoso.(...)

Depois surgiu Alexandre VI o qual mostrou bem quanto um papa se podia fazer valer pelo dinheiro ou pela força, através do duque de Valentinois e por ocasião da vinda dos Franceses a Itália.(...)Embora a sua intenção não fosse o benefício da Igreja mas sim o do seu filho, o que fez redundou a favor daquela instituição, pois por morte do papa e do seu filho foi a Igreja que herdou o resultado das suas penas e trabalhos. Júlio II que se sucedeu, achou já a Igreja muito poderosa, senhora de toda a Romanha, com os barões de Roma todos arruinados e as facções abolidas em consequência das muitas perseguições de Alexandre. Encontrou também o caminho aberto para amealhar dinheiro, o que nunca fora praticado antes de Alexandre. O papa Júlio não só continuou tudo isso como lhe deu maior amplitude, metendo-se-lhe na cabeça apoderar-se de Bolonha, expulsar os Franceses de Itália. Todas estas aventuras foram coroadas de êxito e são tanto de louvar quanto é certo que as empreendeu para engrandecer a Igreja e não qualquer particular. (..)
Mas agora Sua Santidade o Papa Leão encontrou um papado muito poderoso e só é de esperar que, se os outros o engrandeceram pelas armas, ele o torne muito maior e digno de veneração pela sua bondade e outras virtudes infinitas".

in O Príncipe, De Principatibus eclesiasticis (Dos Principados Eclesiásticos), por Maquiavel

sexta-feira, 12 de outubro de 2007

em memória de todos os massacres

Fluxo de consciência

(...)
"estou a adiantar-me, doutor, eu sei que sim, agora tenho mesmo a certeza porque nem o vejo a tirar notas, quererá deixar-me terminar para depois ditar-me uma sentença.
Sabe o que custa cumprir uma sentença
(...)é que, confesso ainda, me faz aflição você não dizer nada, tinham-me avisado do tempo

Acabou-se o tempo

mas não da sua postura, esse silêncio qu enão sei como entender, ou é extraordinariamente inteligente e oberva-me de um patamar que não, nuncahei-de vislumbrar, ou não conseguiu ouvir nada do que eu digo, ou não quer ouvir nada do que eu digo, assim que o qu edigo foge à sua grelha de análise, está talvez furioso desagradavelmente surpreendido, e como não sabe o que dizer-me não diz nada
(...)Passei pois dos quarenta, fiz tudo o que o meu pai exigiu, o que penso espero o deixe orgulhoso, tenho filhos, esposa, emprego de reputação, profissão liberal, sou dos melhores no meu ramo, mas não consigo deixar de pensar, doutor, que a meio da vida já fiz o que tinha a fazer, o que era suposto fazer

Pode morrer em paz pai
que faço agora com o que me resta, ninguém me preparou, daí talvez buscar respostas, haverá resposta concludente, como me justifico à menina que foge do pai, o homem que consegui voltasse tranquilo a casa, a abrir garrafões e a sorrir, apesar de desagradavelmente surpreendido por lhe ter baralhado diagnósticos há ainda uma outra coisa que gostaria que escutasse

Pois é
Imagino que acabou o tempo
É
Tem uma vista lindíssima, os barquinhos no rio
Pois é
Serei para si ainda um fulano. Ou consegue ver-me."

in A casa quieta, Rodrigo Guedes de Carvalho

quarta-feira, 10 de outubro de 2007

Dia Europeu contra a Pena de Morte


Abominando a "moda" dos dias instituídos, servirão estes talvez para nos forçar a uma reflexão sobre temas polémicos ou incómodos. Assim, a hipocrisia da institucionalização do dia torna-se suportável pelo pretexto gerador de debate, reflexão e eventual consciencialização. Numa sociedade pós-moderna subtraída de ética e com excedentes teatrais de superficialidade emocional/sentimental e vivências hedonistas de um autismo disfórico, reflectir ...custa. O conceito de "solidariedade" há muito que se esvaiu, sendo perigosamente conotado com ideologias antropófagas ..demasiado "gauche".

Pena de morte..não! Porquê? Por...
...não se tratar de uma questão teórica mas envolver vidas dos nossos semelhantes
...ter por base uma justiça humana e, como tal, falível à qual o conceito de "imperfeição" ou "erro", neste caso, é inerente.
...termos de viver com a responsabilidade e remorso - palavras arredadas do discurso actual - de condenar inocentes irreversivelmente.
...o seu efeito "pretensamente correctivo e disciplinador" ter sido gorado nos países em que é aplicada.
...não se registar diminuição da criminalidade - quem comete um crime nunca espera ser descoberto nem pensa à priori no "falhanço" do seu plano.
...os mais frequentes condenados serem membros mais vulneráveis da sociedade: indigentes, etnias minoritárias e indivíduos com distúrbios mentais.
...raramente os condenados terem direito a uma representação legal, desconhecendo inclusive a queixa/crime que sobre eles impende.
...ir contra o Tratado dos Direitos Humanos - ainda que este seja considerado uma forma de preservação da espécie por decreto.
...todo o processo ser célere a ponto de, as famílias do condenado, muitas vezes nem serem avisadas.
...esta celeridade não deixar espaço ou tempo para recursos, apelos ou petições de clemência.