"Convite para uma chávena de chá de jasmim"


quarta-feira, 24 de outubro de 2007

Sentimento do Absurdo


Um dos meus livros preferidos e que agora, com outra (matur)idade releio, descobrindo detendo-me em diferentes recessos. Eis excertos do texto introdutório da autoria de Sartre:

" O absurdo não está no homem nem no mundo se os tomarmos separadamente; (...)é unitário com a sua condição humana. (...)É uma uma iluminação desolada que no-lo revela: os gestos de levantar, carro eléctrico, quatro horas de escritório ou de fábrica, refeição, carro eléctrico, quatro horas de trabalho, refeição, sono, e segunda-feira, terça, quarta, quinta, sexta, sábado no mesmo ritmo..e depois, de repente, os cenários desabam e acedemos a uam lucidez sem esperança. Então, se sabemos recusar o socorro enganador das religiões ou das filosofias da existência, temos algumas evidências essenciais: o mundo é um caos, uma divina equivalência que nasce da anarquia; - não há amanhã, visto que se morre..Num universo subitamente privado de ilusões e de luzes o homem sente-se um estrangeiro. Tal exílio é um recurso visto que está privado das recordações de uma pátria perdida ou da esperança de uma terra prometida. É que, com efeito, o homem não é o mundo..Se eu fosse árvore entre a´rvores..esta vida teria um sentido, ou melhor, este problema é que não o teria, porque eu faria parte deste mundo, seria este mundo ao qual agora me oponho com a minha consciência..Esta razão tão irrisória que me opõe a toda a criação.

O homem absurdo não se suicidará: quer viver, sem abdicar nenhuma das suas certezas, sem dia seguinte, sem esperança, sem ilusões e também sem resignação. O homem absurdo afirma-se na revolta. Fixa a morte com uma atenção apaixonada e esta fascinação liberta-o: conhece a divina disponibilidade do condenado à morte . Tudo é permitido visto que Deus não existe e visto que se morre. (...) O presente e a sucessão de presentes perante uma alma sempre consciente é o ideal do homem absurdo. (...) O homem absurdo não explica; descreve.(...) O absurdo é o divórcio, a deslocação. O mais seguro dos mutismos não é calarmo-nos mas falarmos."

Jean-Paul Sartre
Introdução a O estrangeiro, Albert Camus

terça-feira, 23 de outubro de 2007

Modern Times


The paradox of our time in history is that we have taller buildings but shorter tempers, wider freeways, but narrower viewpoints.
We spend more, but have less; we buy more, but enjoy less.
We have bigger houses and smaller families, more conveniences, but less time.
We have more degrees but less sense, more knowledge, but less judgment, more experts, yet more problems, more medicine, but less wellness.
We drink too much, smoke too much, spend too recklessly, laugh too little, drive too fast, get too angry, stay up too late, get up too tired, read too little, watch TV too much, and pray too seldom.
We have multiplied our possessions, but reduced our values.We talk too much, love too seldom, and hate too often.We've learned how to make a living, but not a life.
We've added years to life not life to years.
We've been all the way to the moon and back, but have trouble crossing the street to meet a new neighbor.
We conquered outer space but not inner space.
We've done larger things, but not better things.
We've cleaned up the air, but polluted the soul.
We've conquered the atom, but not our prejudice.
We write more, but learn less.We plan more, but accomplish less.We've learned to rush, but not to wait.
We build more computers to hold more information, to produce more copies than ever, but we communicate less and less.
These are the times of fast foods and slow digestion, big men and small character, steep profits and shallow relationships.
These are the days of two incomes but more divorce, fancier houses, but broken homes.
These are days of quick trips, disposable diapers, throwaway morality, one night stands, overweight bodies, and pills that do everything from cheer, to quiet, to kill.
It is a time when there is much in the showroom window and nothing in the stockroom.
A time when technology can bring this letter to you, and a time when you can choose either to share this insight, or to just hit delete.
Remember to spend some time with your loved ones, because they are not going to be around forever.
Remember to say a kind word to someone who looks up to you in awe, because that little person soon will grow up and leave your side.
Remember to give a warm hug to the one next to you because that is the only treasure you can give with your heart and it doesn't cost a cent.
Remember to say, "I love you" to your partner and your loved ones, but most of all mean it.
A kiss and an embrace will mend hurt when it comes from deep inside of you.
Remember to hold hands and cherish the moment for someday that person will not be there again.
Give time to love, give time to speak and give time to share the precious thoughts in your mind.

George Carlin
Imagem: Cao Fei

segunda-feira, 22 de outubro de 2007

Sociedade Pop-Psi


A sociedade pós-moderna é a época do deslizar,um tempo em que a res publica já não tem qualquer elo sólido, qualquer ponto de ancoragem emocional estável. (...) Tudo se desliza e se paga numa indiferença descontraída. O narcisismo é indissociável desta tendência histórica para a transferência emocional; (..)não se caracteriza apenas pela auto-absorção hedonista.Tem o seu modelo na psicologização do social. Cada um de nós pretende tornar-se locutor e ser ouvido mas quanto mais os indivíduos se exprimem menos há que dizer. Paradoxo reforçado ainda pelo facto de ninguém se interessar, no fundo, por tal profusão de expressão com a excepção do emissor ou criador.

Numa sociedade aberta, plural, levando em conta os desejos do indivíduo e aumentando a sua liberdade combinatória, a sedução non stop tornou-se o processo geral que tende a regular a vida pós-moderna. Esta, sem imperativo categórico cria um ambiente em que o processo de personalização reduz os quadros rígidos e coercivos.

O culto da espontaneidade e a cultura psi estimulam o indivíduo a ser "mais" ele próprio, a "sentir", a libertar-se dos papéis e "complexos". É a cultura do "feeling" e da emancipação individual alargada a todos os grupos de idade e sexo. O processo de personalização asseptiza o vocabulário como o coração das cidades, os centros comerciais e a morte. O indivídui pós-moderno está ligado à música de manhã à noite como se precisasse de uma desrealização estimulante.

Numa altura em que o crescimento económico se esgota, o desenvolvimento psíquico reveza-o; no momento em que a informação se susbstitui à produção, o consumo de consciência torna-se uma nova bulimia: ioga, psicanálise, dinâmica de grupo. Canalizando as paixões no sentido do eu, promovido à categoria de umbigo do mundo, a terapia psi, gera uma figura inédita de Narciso, identificando doravante este com o homo psychologicus. Narciso obcecado por si próprio não sonha, no seu grande destino de autonomia e de independência.

Narcisismo total em que a palavra de ordem já não é a interpretação mas o silêncio do analista: libertado da palavra do Mestre e do referencial de verdade o analisando é apenas entregue a si próprio numa circularidade regida exclusivamente pela auto-sedução do desejo. Quando o discurso cede à emoção directa, o narcisismo pode cumprir-se em toda a sua radicalidade.

Quanto mais o Eu é investido, feito objecto de atenção e de interpretação, mais a incerteza e a interrogação crescem: o Eu tornou-se um conjunto frouxo.

in A era do vazio de Gilles Lipovetsky

domingo, 21 de outubro de 2007

Dia Nacional/Mundial/Internacional para ..pensar!?!


Chateiam-me sobremaneira, a nível público ou privado,os dias instituídos por decreto para pensar, para nos consciencializarmos do nosso papel na sociedade e para nos lembrarmos dos outros. Recentemente "comemorou-se" - a palavra foi ironicamente escolhida - o dia qualquer coisa de luta contra a pobreza. Em cada blogue que visitava lá me deparava eu com ícones alusivos, posts descritivos, informativos,com estatísticas e testemunhos num tom pesaroso,denunciador, reprovador: "recensões" e dissensões críticas sobre o tema. Lá vinham as imagens de África, Ásia estando a objectiva pré-programada para captar rostos e corpos de mulheres e crianças. Nisto de pobres..que se lixem os homens! O rosto condoído de uma mulher deve perturbar mais a consciência mundial do que um esqueleto ambulante - quando ainda tem forças para o mover - masculino.

Referia-se o caso português, a "evolução" das assimetrias sociais; apelava-se ao compromisso, à participação activa. Quase todos os artigos e comentários que li evidenciavam testemunhos de cidadãos consciencializados e envergonhados com o "status quo", imbuídos de um espírito de entreajuda conducente a uma trabalho activo e empenhado nessa "cosa nostra". Quando o que mais oiço é "não tenho tempo para nada" apraz-me registar que, os que por estas paragens vagueiam, são malabaristas do tempo, pessoas disciplinadas capazes de incorporar todos os seus múltiplos deveres num dia de trabalho..compulsivo e voluntário!

Se o tom de certos posts era incisivamente militante não ficava aquém do dos comentários: compromissos de honra dirigidos ao(s) administrador(es)/autor(es) dos blogues reiterando não só a sua participação real e efectiva levada a cabo diariamente nos seus domínios pessoal e profissional como se endereçavam ainda promissores "mas se mais for preciso..cá estarei".Um mimo este, hein? Ainda me questionei...mas este vai organizar uma actividade com um impacto prático, objectivo e imediato que despoletou no/a visitante um assomo hormonal e irreprimível de solidariedade?

Não li posts sobre os sem-abrigo da zona de residência dessas pessoas; não li sobre a recusa de trabalho ou de espírito de sacrifício de alguns que, convenhamos, dá emprego a vagas de imigração; não li sobre trabalho voluntário em instituições ou em ajuda prestada à família de um vizinho que tem um filho deficiente profundo, uma mulher cuidando do seu marido com Alzheimer necessitada de, além de tempo para si, algo mais sólido e imediato. Li críticas à Declaração do Milénio assinada na ONU em 2000 e à falta de cumprimento dos seus oito princípios estruturantes, sendo que o do combate à pobreza era um dos prioritários, a par do combate a discriminações e à sustentabilidade ambiental. Não li sobre Gisberta, violentamente agredida num parque abandonado a que chamava "lar", tão perto de um hotel de cinco estrelas; não me deparei com encómios à tolerância e à sua garra quando, aconselhada a sair, afirmou tão somente: "Posso estar muito mal, mas continuo a ter a força (de um homem) não vai ser por causa de uns miúdos..." Não li também muitos posts de anuimento quando Gore ganhou o Nobel da Paz - ainda na sequência da declaração das supostas 189 "nações unidas".

Aliás, hoje ligo o computador e fico a saber que Giuliani anda num corropio eufemístico, vulgo "arranjar desculpas" para en/reformar as suas convicções, ou melhor, as suas declarações. Passo a citar: "Giuliani appealed to his audience to look beyond his support for abortion rights and focus on shared values, such as fighting crime and his vow to relentlessly pursue the war on terror". Na sequência do olhar para lá de ... lá vai o desvio de olhar e memória para os direitos das minorias sexuais, étnicas,etc, etc..

Onde está a indigência? Quem são os pobres? E quem são os tristes?

A imagem contém linguagem imprópria a que os americanos são alheios, nada lhes podendo, consequentemente, ser imputado. O texto é em inglês e quanto ao nível/registo de língua ...bem... esse é europeu, como denota a expressão polida que antecede o vernáculo: "Pardon my French".

sábado, 20 de outubro de 2007

O aparato e a aparência


(…)
Arcaica e estratificada a certos níveis, a sociedade portuguesa oferece, por contraste, uma extraordinária mobilidade “psíquica”, ou antes, uma comum disponibilidade para que os indivíduos que a constituam ocupem nela as mais imprevistas funções. No curioso far-west em que nos convertemos – depois de séculos de clausura sociológica – a predisposição crónica do efeito de aparência eclipsa quase por complete a crítica e o contrapeso que a avaliação mais correcta das exigências da realidade e da capacidade para as satisfazer, importa. Em princípiotodo o português que saiba ler e escrever se acha apto para tudo, e o que é mais espantoso é que ninguém se espante com isso.

(…)

É pena que Freud não nos tenha conhecido: teria descoberto, ao menos, no campo da pura vontade de aparecer, um povo em que se exemplifica o sublime triunfo do princípio do prazer sobre o princípio da realidade.Talvez não ficasse tão admirado se conhecesse, mesmo pela rama, uma das menos repressivas educações infantis que existem. Adulação permanente e espectacular da criança-rei (sobretudo o macho), porta aberta para as suas pulsões narcisistas e exibicionistas, ausência de perspectiva social positiva, salvo a que prolonga a afirmação egoísta de si, tais são os mais comuns reflexos da educação portuguesa, defesa natural de mães frustradas nela pelo genérico absentismo e irresponsabilidade paternos. A contrapartida desta realeza traduz-se numa indefinição do espaço humano que nada limita e define senão a vontade oposta. (…) A sociedade portuguesa não é a única que vive sob o modo de uma quase total exterioridade e em obediência ao pendor iresistível de ocupar nela o lugar que implica o mínimo de resistência e o máximo de promoção social segundo a norma do parecer, mas é certamente uma das mais perfeitas no género.

Eduardo Lourenço, in O Labirinto da Saudade, 1978
A 4 de Dezembro doutor "honoris causa" pela Universidade de Bolonha.

Tu és um lindo rapaz


Tu és um lindo rapaz
Vê-se que foste educado
E tens boa apresentação
Conheci-te ainda há pouco
Mas já estou enfastiado
Não falo mais contigo
Nem para saber que horas são

Tu queres sorrir como o Steve McQueen
Falar como o Marlon Brando
E o teu olhar lembra-me o Valentino
Do Fred Astaire queres ter os pés
Cantar como o Sinatra
E eu não chego a saber quem tu és

Tu és um lindo rapaz
Mesmo quando olhas de lado
Para ver se estás a ser notado
Gramo à brava o teu cabelo
É pena estar cheio de laca
Só espero que uma hora ao pé de ti
Não dê ressaca

Tu queres sorrir como o Steve McQueen
Falar como o Marlon Brando
E o teu olhar lembra-me o Valentino
Do Fred Astaire queres ter os pés
Cantar como o Sinatra
E eu não chego a saber quem tu és

Jorge Palma, Tu és um lindo rapaz

Significante, Significado e Referente


A vida não é como os livros, dizem. A vida não é os livros. Porém os livros são acerca de vidas; são o produto de vidas; influenciam vidas. Humm..quanto mais penso no tema, mais semelhanças encontro entre ambos:a limitação do seu tempo físico de vida ainda que perdurem na memória; a sua necessidade de "novos formatos" a fim de não se perder irreversivelmente (nem sempre se consegue); a "escolha" condicionada - umas vezes é escolhida; a carestia (importa SOBREviver e não SUbsistir); o espaço que se partilha umas vezes, ou que pretendemos manter secreto de tão precioso ou ímpar; o seu título (o nome próprios, os comuns, o epitáfio); a capa e a contracapa (solar e lunar das decisões)...

Recentemente - e considerando o aspecto relativo do tempo - socorri-me do dicionário- MA(E)nancial que nunca enjeito - e rumei até à letra H...sim...procurava a definição de "homem". Pondo de parte perspectivas, acepções, contextos. Singela e objectivamente: "homem". Talvez assim pudesse aproximar o conceito da vida por intermédio do livro. Este como mediador: o dicionário como guia das estradas não que me sentisse perdida mas para nele tentar encontrar uma sinaléctica que indicasse uma actualização, auto-estradas, vias alternativas que tivessem soterrado a estrada de terra, íngreme porém pitoresca.

Atalhando a definição inicial de ser humano racional , mortal, topo da pirâmide evolutiva e sem considerações linguísticas feministas que me induzissem a discorrer sobre "a espécie humana" lá encontrei "ser humano do sexo masculino, na idade adulta; ser dotado de qualidades viris como coragem, força, vigor sexual, etc; marido ou amante; homem que apresenta os requisitos necessários para um empreendimento" (funcionalista!)

in Aurélio século XXI, Aurélio Buarque de Holanda Ferreira

Como a era é tecnológica, os dedos rumaram à Wikipedia

"Homem é um ser humano do sexo masculino bípede da família dos primatas, pertencente à subespécie Homo sapiens sapiens.O termo menino é usual para uma criança humana do sexo masculino e o termo rapaz atribuído a um macho humano adolescente ou jovem adulto. O termo homem pode ser utilizado ainda para se referir ao ser humano de maneira geral, seja ele homem ou mulher. (...)

A condição de homem é normalmente vinculada ao período da vida após a juventude, pelo menos numa acepção física, durante o puberdade. Um menino é uma criança humana masculina. Para muitos, a palavra homem implica um determinado grau de maturidade e responsabilidade para as quais homens jovens, em especial não se sentem prontos; contudo, também podem sentir-se demasiado velhos para serem chamados de menino, por esta razão, muitos evitam usar o termo homem ou o menino para descrever um homem jovem e preferem termos mais coloquiais tais como rapaz e gajo."

Bem me parecia que, apesar dos viadutos, vias rápidas anunciadas em planos megalómanos auto-promocionais por entre muita pompa e ainda mais circunstância...a estrada de terra...continuava lá.

Corrompendo a citação: Não deixeis vir a mim as criancinhas!